24 de dez de 2013

ENTREVISTA COM TIAGO TORRES DA SILVA

    



Autor teatral, poeta e letrista português, Tiago Torres da Silva tem letras gravadas por grandes nomes da música portuguesa e brasileira. Maria Bethânia, Olívia Byington, Ney Matogrosso, Alcione, Chico César, Elba Ramalho, Daniela Mercury, Seu Jorge, Fafá de Belém, Edson Cordeiro, Francis Hime, Marcos Sacramento, Joanna, Ná Ozzetti, Mônica Salmaso, Zélia Duncan, Rita Ribeir e Zeca Baleiro, no Brasil, além de grandes nomes da música portuguesa como Carminho, António Zambujo, Teresa Salgueiro, Sara Tavares, Dulce Pontes, Hélder Moutinho, Eugénia Mello e Castro, Maria Amélia Proença, Mafalda Arnauth, Teresa Tarouca e Né Ladeiras, são apenas os nomes mais conhecidos de cantores que já registraram canções letradas por ele.

Tiago é também o autor de todas as letras do recém lançado "Água Lusa", CD em que a cantora Jussara Silveira aborda a música portuguesa.

Tiago me concedeu essa entrevista no momento em que está de passagem pelo Brasil, falando de fado, de música brasileira, de mercado e de seu encontro com Jussara Silveira. Infelizmente não tivemos a oportunidade de conversarmos pessoalmente, mas para mim foi como se estivéssemos a comer sardinhas grelhadas na Alfama a ouvir o belo "Água Lusa": um grande privilégio.

DOUG CARVALHO: Tiago, você me contou recentemente ter uma grande predileção por música e cantoras brasileiras. Como você travou conhecimento com Jussara Silveira? 

TIAGO TORRES DA SILVA: Desde sempre escuto muita música brasileira, tenho por mestres Chico, Caetano, Milton, Paulo César Pinheiro entre muitos outros. Vivi a minha adolescência assistindo shows de Gal, Bethânia, Simone, Ney, Rita, Elba entre muitos outros. Por isso, foi natural começar a escrever para a chamada MPB. Tudo isso fez com que eu aprofundasse o meu conhecimento sobre a música do Brasil. Na safra de novas cantoras que fui descobrindo, Jussara se perfilou como uma das melhores. Um dia, ela foi fazer show a Lisboa e nos encontrámos. Foi amor à primeira vista. Logo ali começou a nascer a vontade de trabalharmos juntos. Isso materializou-se ao fim de alguns anos neste "Água Lusa" que tanta alegria me dá! 

DC: Como surgiram os temas e as letras escritas para “Água Lusa”? 

TTS: "Água lusa" é um disco de retrospectiva. Muitas das canções foram grandes sucessos na minha carreira. É o caso de "Voltarei à minha terra", sucesso na voz de Tereza Salgueiro ou "O mar fala de ti", sucesso na voz de Mafalda Arnauth. O único tema escrito para esse disco foi "Na companhia de fadistas" e, na realidade, eu acho que o fato de Jussara ser uma cantora baiana levou-nos a escolher canções que se relacionassem com o mar. Isto é um bocadinho um "best of" dos meus 23 anos de carreira olhados pela emoção inteligente de Jussara. 

DC: A música brasileira tem uma grande penetração no mercado português, e algumas cantoras, como Joanna e Fafá de Belém, muito populares em Portugal, gravaram discos dedicados à música portuguesa. Eu tenho a impressão que esse carinho dos artistas brasileiro com a música portuguesa é muito bem aceito pelos portugueses. Você acredita que um disco como “Água Lusa” teria o poder de projetar o nome de Jussara Silveira em Portugal? 

TTS: Eu não sei te responder a isso. O mercado nos nossos países está muito estranho. Eu acho que deveria. Acho que Portugal se deveria alegrar porque, pela primeira vez, uma cantora brasileira dedica um cd inteiro à obra de um letrista português. Mas não sei. Espero que sim. Mas, eu já não estou entendendo nada do mercado. Por isso, faço o que o meu coração manda e deixo essa coisa do mercado para quem entende do assunto. 

DC: Apesar de termos a mesma língua, eu observo que, infelizmente, a música portuguesa não tem sido muito popular no Brasil como deveria. Observo, por exemplo, a carreira de Mariza, que é uma cantora de carreira internacional fortíssima, ser muito pouco conhecida no Brasil. A que você atribuiria isto? Acredita que existam medidas culturais que poderiam divulgar a cultura musical portuguesa mais profundamente no Brasil? 

TTS: Eu venho pro Brasil há 15 anos e, quando comecei a vir, todo mundo me falava que seria impossível penetrar no universo da música brasileira porque os "brasileiros têm preconceito com os portugueses e vice-versa". Nunca acreditei nisso e, ao fim de 15 anos, posso afirmar que é mentira: dirigi Bibi Ferreira. Fiz um disco inteiro com Olivia Byington. tenho parceria com meio mundo. As letras que escrevo foram gravadas por Bethânia, Ney Matogrosso, Alcione, Elba Ramalho, Daniela Mercury, Seu Jorge, Fafá de Belém, Zeca Baleiro, Mônica Salmaso, Joanna, Pedro Luis, Chico César, Francis Hime, Zélia Duncan, entre muitos outros. Acho que tem de se fazer e esquecer os preconceitos, ainda que saibamos que eles existam. Há dois dias estive no "Miranda" assistindo o show da espantosa Carminho e vi que o público brasileiro a recebe de braços abertos, como recebe o António Zambujo. Então, acho que temos de deixar de pensar no que não acontece e aplaudirmos o que acontece. Assim, as coisas vão melhorar. Em Portugal, a música brasileira também já conheceu melhores dias. Mas, eu acho que também tem um pouco a ver com a qualidade das coisas. Tem muita coisa no Brasil e em Portugal que pode até ser óptimo mas não tem uma coisa internacional que eu não sei bem dizer o que é. Quanto ao caso específico da Mariza, não sei dizer. Acho que ela é bem conhecida aqui. Acabou de vir para o Brasil há uns meses, fez show no Tom Brasil (SP) e na Barra em casa de show enormes. E tenho a certeza que lotaria sempre se os produtores assim decidissem, porque ela tem, como poucas, esse "não sei quê" internacional. 

DC: O fado, que é a base de “Água Lusa”, é o gênero musical português mais tradicional. Porém existe uma cena pop muito forte em Portugal. Como é a receptividade das gerações mais novas de Portugal ao fado? 

TTS: O fado é, mais ou menos, a base de "Água lusa". a verdade é que nós começámos pelo fado, mas, depois abrimos para outras formas musicais, até porque Jussara já cantava no show "entre o amor e o mar" uma canção minha (Uma canção por acaso) que não tem nada que ver com o fado. Mas você precisava ver Jussara numa casa de fado. Toda ela se transfigura. Parece que a alma dela lhe aflora aos olhos. E a gente pode ver como uma canção pode revelar tanto uma alma. Foi por isso que afirmei que Jussara é a mais portuguesa das cantoras brasileiras. É que ela entende o fado não com os ouvidos, nem sequer com o coração, é algo bem mais profundo. A cena pop em Portugal já foi mais forte. Nos anos 80 e início da década de 90, era mesmo muito forte. Hoje em dia, o fado ganhou um espaço na mídia e na atenção das gerações mais jovens muito, muito grande. Acho que se pode dizer que o fado está na moda. A geração mais jovem tem grandes instrumentistas, grandes letristas e grandes intérpretes como, para além dos 3 já citados, Camané, Ricardo Ribeiro, Ana Moura, Ana Sofia Varela, Gisela João, Pedro Moutinho, Marco Rodrigues, Joana Amendoeira, Carla Pires, Kátia Guerreiro entre muitos, muitos outros.

DC: Rui Veloso é um dos grandes astros da música portuguesa, e uma das melodias de “Água Lusa” é de autoria dele. Vocês são próximos e como surgiu “O nome do mar”?

TTS: Eu e o Rui colaboramos há muito tempo. Fizémos canções para Adelaide Ferreira, Simone de Oliveira... Eu adoro o Rui! Além de cantar magnificamente, é muitíssimo boa gente. É e será sempre uma alegria estar perto dele. "O nome do mar" foi uma canção que fizémos há muito tempo e estava no éter à procura do momento para aparecer ao mundo. Jussara é O momento para apresentar qualquer canção ao universo.

DC: O fado tradicional tem uma característica que acho fascinante, que é aquela história das 300 melodias que todo fadista tem que saber e que cada intérprete canta com letra diferente. O “Fado menor do Porto”, que foi sucesso de Amália Rodrigues com o nome de “Não é desgraça ser pobre” aparece no “Água Lusa” como “Sereia”, com letra nova feita por você. Essa letra foi feita especialmente para Jussara Silveira? E a intenção foi seguir a tradição fadista?

TTS: Não, não! Ninguém sabe todas as melodias do Fado tradicional, até porque há quem diga que são cento e poucas, há quem diga que são quatrocentas e tantas. Não se chega a um consenso. Mas, sim, existe um acervo de melodias que vão ganhando letras novas, à medida que os fadistas as vão cantando. Por exemplo "Estranha forma de vida" é cantado na música do "Fado bailado" que tem centenas de letras. Só que aquela foi mais forte e se impôs perante as outras. Em "Água lusa" temos quatro exemplos desses fados: "Fado margaridas", "Fado licas", "Fado Santa Luzia" e "Fado menor do porto" que foi sucesso na voz de Amália com essa letra que você citou e que era uma letra que Amália não era capaz de cantar sempre. Numa entrevista, ela falou que uma vez estava cantando esse fado e teve de parar porque o que se diz é tão forte que ela não poderia jamais terminar o fado, no estado de espírito em que se encontrava naquela noite. Gal Costa cantou belissimamente "Não é desgraça ser pobre" no show "O sorriso do gato de Alice". Pena não ter gravado. Agora, você não vai acreditar: "Sereia" que Jussara canta aqui nessa melodia tradicional do fado, foi escrita para... Ney Matogrosso, que a gravou incrivelmente há mais de 10 anos!

DC: Gostaria de agradecer imensamente sua disponibilidade em responder essa entrevista, e, para finalizar, deixo aberto esse espaço para você dar seu recado para o público do blog.

TTS: Eu é que agradeço pelo espaço concedido. Meu recado se prende com o momento atual. Acho importantíssima a existência desses blogues, desses canais dentro da net para divulgar trabalhos mais alternativos porque está difícil competir com uma mídia burra, sensacionalista e populista. O único poder que nos deixaram foi podermos escolher onde vamos colocar nosso dinheiro. As pessoas lamentam que os teatros fechem, que as livrarias encerrem, que os CDs vão acabar. Só tem uma forma de inverter essa tendência. É comprando discos, livros, indo ao teatro, etc. A cultura, somos nós que a fazemos e sempre que compramos um CD de qualidade, estamos fortalecendo a música de qualidade, estamos fortalecendo a existência daquele artista. Estamos honrando a memória daqueles que fizeram da MPB uma das melhores do mundo. Não pirateiem música. Comprem. Baixem no Itunes. Mas usem vosso poder para dizerem ao mundo que é possível subverter essa loucura capitalista que hoje em dia mata tudo que não for imediatamente um sucesso de vendas. No mais, sejam felizes e tenham um 2014 fantástico. Se lhes der vontade, vão procurar "Água Lusa" e se deliciem com o canto impressionante dessa que é uma grande cantora em qualquer parte do mundo. Muito me honra ouvir as palavras que escrevi na voz de Jussara Silveira.

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