26 de nov de 2013

É melhor Ser - Simone


As novas gerações, em especial as novas cantoras, às vezes se preocupam tanto em fazer discos em que sonoridades, arranjos e composições sejam o supra-sumo da vanguarda que esquecem de uma coisa fundamental para uma CANTORA: identidade. Aquele algo mais que faz com que um disco, uma música tenha A CARA do intérprete que assina a obra.

Simone, seguramente, não é uma intérprete sem identidade. Não precisa conhecer uma música dela para se identificar imediatamente seu timbre, seu estilo.

Simone acaba de lançar um novo CD, em comemoração aos seus 40 anos de carreira. Chama-se "É Melhor Ser" e se trata de uma coletânea de canções compostas apenas por mulheres, as compositoras que surgiram e se firmaram nesses 40 anos em que Simone tem sido presença importante no panorama da MPB.

Alzira Espíndola, Teresa Cristina, Zélia Duncan, Angela Ro Ro, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Joyce, Fátima Guedes, Rita Lee, Dona Ivone Lara e Joanna, além da própria Simone e de uma letra de Fernanda Montenegro, foram as escolhidas por Simone, como ela mesma disse em entrevista recente em que ela falou ter usado o www.cantorasdobrasil.com.br na pesquisa de quem seriam as tais compositoras.

Pois bem. Não esperem no novo CD de Simone arroubos de vanguardices. Trata-se de mais um disco de Simone. Coerente com a personalidade e estilo da cantora que é chamada de "Cigarra". E isso é bom!

Músicas conhecidíssimas como Só nos resta viver, Mutante, Charme do mundo e Acreditar não são modernizadas numa busca inútil pelo novo, mas na voz de Simone são outras. São gravações DE SIMONE e ponto final!

Algumas pessoas vão amar. Outras vão odiar. Eu, particularmente, gostei. Mesmo que certas gravações originais sejam imbatíveis, em nenhum momento o disco de Simone resvala no supérfluo. É um disco de ótimo repertório, com uma cantora excelente em ótima forma. No seu aniversário de 40 anos, Simone comemora elegante e discretamente e nos dá um belo presente.

PS: Feliz de, finalmente, ter um grande nome da MPB reconhecendo o valor de Teresa Cristina como compositora, com sua "Trégua suspensa". Já estava mais do que na hora e é merecidíssimo. Lembrando que, no show, Teresa é brindada com outra música no repertório, seu samba "Candeeiro".

23 de nov de 2013

Clara Nunes

 

 

 

 


A Mineira Guerreira Filha de Ogum com Inhansã.


Mineira, guerreira, sabiá. 

São muitos os adjetivos criados pelos compositores para definir Clara Nunes. Em 2013 completam-se 30 anos de sua morte e, entre homenagens sinceras (mesmo que bastante criticadas pelos puristas e fãs mais exigentes) de crias interpretativas de Clara, como Fabiana Cozza, Mariene de Castro e Carla Visi, esse texto pode parecer atrasado.

Mas, por alguma coincidência Clara é uma cantora que voltou a tocar com frequencia aqui em casa. Sua discografia traça uma parábola ascendente que em nenhum momento (até por sua morte trágica e repentina) ameaçou a curva de descida.

Clara começou nos anos 60 como cantora romântica, talvez navegando nas águas do sucesso de Altemar Dutra. Mas já em seu segundo disco atingiu o sucesso nacional com um samba inédito de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, "Você passa eu acho graça". Era 1968 e a partir daí Clara marcou seu nome a ferro e fogo na história do samba, da música brasileira e tornou-se uma cantora divisora de águas. Foi Clara a primeira artista a romper com um tabu existentes nas gravadoras nacionais de que mulheres não vendiam muitos discos. O seu sucesso foi tamanho que motivou outras gravadoras a investirem em suas sambistas, tendo a Tapecar trazido Beth Carvalho (que já era muito famosa por seu grande sucesso "Andanças") para o mundo do samba, e a Philips revelado Alcione, tudo para concorrer com o sucesso de Clara na Odeon.

Ê baiana, Tristeza pé no chão, Conto de areia, O mar serenou, Canto das três raças, As forças da natureza, Guerreira, Morena de Angola, Portela na avenida, Nação, são apenas os nomes de alguns grandes sucessos de Clara Nunes. Mas cada um de seus 15 discos solo lançados em vida é um rosário de gravações brilhantes, fundamentais, exemplares. Clara era uma AULA de canto, de interpretação, de voz, de intenções.






21 de nov de 2013

Feliz da Vida é uma brisa numa tarde de sol carioca!

1. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
2. De Amor e Mar (Ângela Ro Ro / Ricardo Mac Cord)
3. Vou Por Aí... (Ângela Ro Ro / Antonio Adolfo)
4. Capital do Amor (Ângela Ro Ro / Jorge Vercillo) - com Jorge Vercillo
5. Ela sumiu (Ângela Ro Ro)
6. Muitas Canções (Ângela Ro Ro / Lana Braga)
7. Romance Espetacular (Ângela Ro Ro / Carlota Marques)
8. Fogueira (Ângela Ro Ro) - com Maria Bethânia
9. Salve Jorge! (Ângela Ro Ro) - com Diogo Nogueira
10. Pinto Velho (Ângela Ro Ro)
11. Opium (Ângela Ro Ro)
12. Beijos na Boca (Ângela Ro Ro / Sandra de Sá) - com Sandra de Sá
13. Tudo Por Um Triz (Ângela Ro Ro / Mario de Castro)
14. Canto Livre (Ângela Ro Ro / Ana Carolina)
15. Malandragem (Cazuza / Frejat) - com Freját
16. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
17. Amor Meu Grande Amor (Ângela Ro Ro / Ana Terra)

Deve ser difícil para um cantor ou cantora fazer um primeiro disco que seja uma obra-prima definitiva. Ele se torna refém desse primeiro trabalho cheio de frescor e inspiração pelo resto de sua trajetória, e tudo que ele faça posteriormente será, de um modo ou outro, comparado a esse primeiro momento.

Angela Rô Rô é desse time. Seu primeiro disco, lançado em 1979 é tão bom, tão especial, tão inspirado, bem tocado e bem cantado, que todos os discos feitos por Angela até agora acabam sofrendo de uma injusta comparação.

Não é o caso de dizer que somente o primeiro disco de Angela seja bom. Não é isso. A grande maioria dos registros da blueseira irreverente de alma cheia de soul e fossa é de excelente qualidade. Mas para se avaliar qualquer novo disco de Angela, nós precisamos descartar esse primeiro disco, para não corrermos o risco da injustiça.
Dito isso, vamos lá: Angela está de disco novo na praça. A cantora que criou fama (muito por preconceito e injustiça) de agressiva nos anos 80 a muitos anos se livrou dos pesos dos vícios e da fossa que, segundo ela mesma, transformaram sua vida num inferno na década de 90, e hoje é uma mulher muito mais leve, não só por conta dos muitos quilos perdidos, mas leve também na alma.

O novo CD (e DVD) de Angela chama-se "Feliz da Vida!" e é uma brisa fresca numa tarde de verão carioca. Essa foi a sensação que me veio ao escutar as novas canções de Angela. A de uma delicioso passeio pela bela orla da Zona Sul do Rio numa tarde de verão, olhando o mar e as montanhas, num estado de total prazer. Feliz da Vida não poderia ser um título mais adequado.

A maioria das canções é inédita, e o destaque é a faixa título, parceria com Paulinho Moska, que aparece em duas versões: uma com o parceiro, a outra somente na voz (sempre belíssima) de Angela. Com exceção de "Fogueira", "Amor meu grande amor" e "Malandragem" (que se justificam pelas participações especiais de Maria Bethânia e Freját, que fizeram sucesso com as duas primeiras e, novamente, de Freját, que compôs a terceira para Angela, mas que esta jamais gravou, deixando o privilégio de lançá-la com imenso sucesso para Cássia Eller), todas as músicas são novas. Jorge Vercilo aparece cantando com Angela outro destaque, a faixa "Capital do amor", mais uma canção com cheiro de Zona Sul carioca.

Angela Rô Rô fez um disco delicioso de se escutar. É um disco simples, despretensioso, ensolarado. Me deixou feliz da vida!

Ana Carolina...



O novo Cd de Ana Carolina é um suplício de se escutar. O que era apenas uma ameaça ao ouvir os primeiros versos da primeira faixa, de nome “Pole dance” (“Ela rebola, rebola, rebola, ela quer dólar, quer dólar, quer dólar...”) se transformou, após atenta audição, na concretização de meus mais fortes temores: Não dá mais para dizer que Ana Carolina está ficando chata. Ela já ficou chata, no mínimo, a uns dois ou três discos atrás.

Não dá mais pra aguentar aquelas letras em que a cantora veste a capa da cafajeste/pegadora (Sei do inferno que eu criei / Na sua vida / Por isso é que você me quer / Então vai ter que me encarar -“Esperta”), o erotismo forçado (Pra distrair ela lê, seu olhar de estilingue / Acerta todo o cabaré, homem e mulher / É muito mais do que bilíngue / Faz com a língua o que quiser – “Pole Dance”), as letras do tipo trava língua repleta de citações de nomes de gente que Ana acha que é chique citar (Será que eu sou capaz de tal canção? / Que tenha algo em excesso ou algo excelso / Como uma peça, um ato de Zé Celso / Como um poema de Augusto de Campos / Ou como um rock de Arnaldo Antunes.... – “Uma Canção Para Ti”), e, as piores, as letras em que Ana Carolina se transforma na amante psicótica (Sei que fui fanática, suicida / Abri mão da própria vida / Fui refém e fui bandida / Por querer te amar demais – “Combustível”).

É sintomático que a melhor música do disco seja um pastiche de Chico Buarque. “A resposta da Rita” é um samba feito sobre a letra e a melodia de “A Rita” de Chico Buarque, no qual a personagem da canção original responde ao compositor, numa letra interessante. Mas precisou a inspiração do grande Chico para motivar o talvez único momento alto do disco inteiro (e com a participação de Chico contracantando a sua própria música). No resto o Cd é enfadonho, chato, repetitivo.

Resta o vozeirão cheio de personalidade de Ana, que, quando não carrega nas tintas, é boa cantora. Talvez esteja mais do que na hora de Ana largar a mão da composição e fazer um disco somente de músicas dos outros, daquelas já conhecidas e batidas, mas que não são clássicas à toa.