14 de mar. de 2012

"Fábula" - Cris Braun



Fábula (Warner / Tratore)

1. Ossos (Wado)
2. Cidade Grande (Wado)
3. Tanto faz Para O Amor (Lucas Santtana / Quito Ribeiro)
4. Deve Ser Assim (Alvin L. / Marina Lima)
5. Tão Feliz (Cris Braun / Billy Brandão)
6. Artérias (Cris Braun) - instrumental
7. Viga (Fernando Fiúza / Cris Braun)
8. Oscilante (Fernando Fiúza)
9. E O Amor Calou (Cris Braun)
10. Terra do Nunca Mais (Cris Braun) - instrumental
11. Memória Da Flor (Jr. Almeida / Zé Paulo) - com Celso Fonseca

A "Fábula" de Cris Braun.


Cris Braun é uma dessas artistas brasileiras que o Brasil deveria conhecer mais. Cantora de voz quente, compositora inspirada, Cris tem prestígio e está sempre cercada de nomes importantes da MPB. Lançou o primeiro CD, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” em 1997, guiada pelos braços de Marina Lima, sendo a primeira artistas lançada pelo selo fonográfico desta. “Atemporal”, de 2005, trazia a participação especialíssima de Paula Toller. Estes são apenas dois exemplos do pessoal que circula ao redor de Cris.



Gaúcha, atualmente Cris reside em Maceió, mas garante que a Internet torna as fronteiras cada vez mais próximas. Ex membro do cultuado grupo Sex Beatles, que também revelou o compositor e cantor Alvin L, agora Cris está lançando seu terceiro CD, “Fábula”, um belo poema/musical que trata de forma leve a respeito das durezas (e suavidades) da vida. Mais uma vez cercada de figuras importantes e talentosas (embora nem sempre conhecidos do grande público): Celso Fonseca, Wado, Lucas Santana, Billy Brandão.

Cris Braun concedeu entrevista para Doug Carvalho por e-mail, e falou de sua carreira, de seu novo CD e de projetos futuros. Leia a entrevista, saboreie os vídeos, compre o CD.



DOUG CARVALHO: “Fábula” é o seu terceiro CD solo. Quando vc prepara o repertório para um CD, como é feita a escolha das canções? Elas vão surgindo naturalmente e formando um repertório ou você tem um conceito desde o início que vai guiando a escolha das canções?

CRIS BRAUN: É muito variável. "Fábula" foi se mostrando, só tinha uma canção e a idéia que queria era a historinha deste ser humaninho que vem, vive e vai embora.

DOUG: Como foi a feitura de “Fábula”? Eu sei que vc demorou um bom tempo preparando ele. O intervalo entre o anterior “Atemporal” e o atual é de sete anos. Por qual motivo demorou para concluir esse disco?

CRIS: Demanda externa, outros assuntos, o fato de fazer entre Rio e Maceió, construção mesmo.

DOUG: De que fala a sua “Fábula”? E qual o motivo desse título?

CRIS: Nascemos inocentes e puros, vivemos e temos todas as experiências de amor, perda, ambição, raiva, alegria, constatações sobre a dureza de se viver nas grandes cidades e na melhor das hipóteses, um dia, reencontramos os sentidos e a paz ! Fala disso. E por isso mesmo "Fábula", embora nao tenha moral da história.

DOUG: Você tem alguma canção favorita nesse CD?

CRIS: "Terra do nunca mais" (NOTA: uma das duas canções instrumentais do CD)

DOUG: O leitor que tiver a curiosidade de escutar o CD pode fazer em algum site na Internet?

CRIS: www.crisbraun.com.br. E lá baixa os outros tb.

DOUG: Em recente entrevista eu li que você, a um tempo atrás, ficou meio “triste” ao se ver no panorama musical brasileiro, por não ter estourado comercialmente lá atrás, quando gravou o primeiro CD, ao mesmo tempo que também não é parte da chamada “Nova MPB”, mas que depois sacou que tinha um lugar para você. Quando li essa matéria, fiquei meio surpreso pelo fato de não ter “estourado” poder entristecer você, uma vez que a forma como você conduz sua carreira não me passar um interesse de ser comercial. Tudo em seu trabalho me dá a sensação de você ser um desses artistas para quem o resultado artístico é bem mais importante que o valor comercial puramente. Como funciona para você essa questão do resultado artístico versus comercialização da arte?

CRIS: O que eu quis dizer alí, é que o fato de não ter tido mais projeção lá atrás, fazia com que eu nesse momento não soubesse em que lugar estava, para onde me dirigir, e se fazer um disco fazia sentido. Isto me deixou triste, não não ter estourado. Mas passou logo (risos). Todos desejamos viver do que fazemos e ter o reconhecimento merecido. Mas não deixo de fazer o que tenho que fazer, mesmo que não seja exatamente como se quer.

DOUG: Quando cada um dos seus três CDs solos foram gravados, você estava morando em cidades diferentes. Em “Cuidado com pessoas como eu” você morava no Rio de Janeiro, “Atemporal” você morava em Teresópolis, e agora com “Fábula” você está morando em Maceió. Eu tenho a sensação de que cada um desses discos reflete o clima dessas cidades. No “Cuidado” a gente percebe uma coisa mais urbana, no “Atemporal” um certo bucolismo do contato com a natureza. Essa impressão minha é pertinente? Se sim, o que há do clima de Maceió em “Fábula”?

CRIS: "Fábula" tá na cidade e tá no mar. "Fábula" tá na alma.

DOUG: Algumas canções compostas por você tiveram sucesso nas vozes de outros cantores, principalmente “Como é que eu vou embora”, com o Kid Abelha, “Menos carnaval” (que eu adoro, por sinal), com Belô Velloso e “Vênus”, com a Daúde. Já pensou em gravar essas músicas?

CRIS: Sim, tenho planos secretos (risos)!!

DOUG: DVD é uma possibilidade?

CRIS: Do jeito que eu gostaria de fazer seria muito caro. Um dia, talvez.

DOUG: Vc é muito ligada em música clássica. Vc acredita que seu modo de compor incorpora elementos da música erudita?

CRIS: Mais no desejo do que de fato. Mas acho que em algum lugar, sim.

DOUG: Cris, o mercado musical de hoje é complicado. Existe a questão da pirataria e do jabá. Pra tocar no rádio o artista tem que ser contratado de uma grande gravadora ou já ser muito conhecido. Como é para você divulgar o seu trabalho no Brasil inteiro? Morar numa cidade que não é considerada um centro cultural como São Paulo e Rio dificulta, ou a Internet consegue eliminar essa questão geográfica?

CRIS: A Internet é gloriosa neste sentido!

DOUG: Em “Fábula” você gravou duas músicas de Wado, e em 2011 o trabalho dele foi muito bem recebido pela crítica. Como foi seu contato com ele?

CRIS: Wado mora aqui, temos a mesma turminha, e eu admiro muito mesmo o trabalho dele.

DOUG: Essa entrevista está sendo feita para um blog e site sobre cantoras brasileiras. Em seu segundo CD você gravou a música “Nenhuma dor”, lançada em 1967 por Gal Costa, no “Cuidado com Pessoas como eu” você gravou “Bom conselho”, que a Bethânia gravou. Vc se considera uma cantora influenciada por outras cantoras brasileiras?

CRIS: Não, eu gosto de música boa, e ouço muita coisa. Não sinto influências diretas não.

DOUG: No Brasil e fora, quem são os artistas que têm tocado no seu aparelho de som?

CRIS: Wado, Lucas Santtana, Pj Harvey, Silva, Leonard Cohen, Mônica Salmaso, Arvo Part, Bjork, Junior Almeida, Kd Lang, bandas de post rock geralmente instrumentais, Gal, Tiê, galera de Pernambuco, muita instrumental mesmo, tipo orquestra de berimbaus.... muita coisa.

DOUG: Vc foi membro do grupo “Sex Beatles”. Como foi esse período de sua carreira?

CRIS: Rock and roll (risos).

DOUG: Você pretende levar o show de “Fábula” pelo país? Como funciona sua agenda de shows?

CRIS: Pretendo ir aonde os recursos permitirem. Tô indo. (risos)

DOUG: Quero agradecer imensamente por essa entrevista. Sinta-se à vontade para mandar sua mensagem para os que a lerem.

CRIS: Só agradecimentos!! E ... “Gentem”, procurem ser originais e curiosos para ouvir música!! Beijocas!

13 de mar. de 2012

Ouça as canções de "Fábula", o novo CD de Cris Braun























"Cuidado Com Pessoas Como Eu"

Assista o Clip de "Cuidado Com Pessoas Como Eu" (Cris Braun / William Magalhães / Nilo Romero), música do primeiro CD solo de Cris Braun, lançado em 1997.

9 de dez. de 2011

O Recanto de Gal Costa.


Gal Costa está de volta, depois de uma lacuna de 6 anos sem gravar (5, se formos contar os CDs "Gal Costa Live at Blue Note" e "Gal Costa Ao Vivo", de 2006). O último disco de estúdio de Gal foi "Hoje", lançado em 2005, no qual a cantora apresentava ao grande público compositores pouco conhecidos, uma coleção de boas canções, mas que, por motivos mais que sabidos - ou mesmo impossíveis de definir - não fizeram sucesso e ainda que o disco tenha recebido boas críticas na época de seu lançamento, permanece pouco conhecido do grande público. O fato é que somente os fãs mais dedicados - e Gal Costa os tem aos montes - conheceram o CD.

Acaba de ser lançado pela gravadora Universal o CD "Recanto". No disco, Gal interpreta 11 canções de Caetano Veloso, que também produziu o CD. Bom... dizer que Caetano produziu o CD e compôs as músicas é uma meia evrdade. O fato é que "Recanto" nasceu de uma idéia de Caetano, que propôs à cantora gravar um CD produzido por ele, somente com canções dele e com sonoridade imaginada por ele, centrada em programações eletrônicas. Dada a proximidade entre os dois artistas, é mais que claro que Gal topou o projeto.

Depois de anos com uma incômoda sensação de que minha adorada cantora preferida iria se tornar uma espécie de súper-Emílio Santiago, relendo com competência mas sem grandes inventividades clássicos ultra conhecidos, Gal gravou um dos CDs mais instigantes e profundos de sua carreira.

Nunca, em nenhum de seus discos anteriores, nem mesmo os mais badalados pela crítica ou os maiores sucessos de público, Gal Costa esteve tão desnudada. Não acho que o fato de ter a maior parte dos arranjos pautados em programações eletrônicas faça de "Recanto" um CD 'moderno.' Ora, a eletrônica não é nenhuma novidade no cenário da MPB, a anos tem figurado em discos de vários artistas do Brasil, como Adriana Calcanhotto, Fernanda Porto, Vanessa da Mata (que estourou nacionalmente com um remix de sua canção "Ai ai ai ai"), só para ficar nas cantoras, foco desse blog. Até a própria Gal Costa já flertou com a eletrônica em seu CD "Aquele Frevo Axé", de 1998, produzido por Celso Fonseca, além de já ter tido algumas de suas músicas remixadas, como já aconteceu com suas gravações de "Socorro", "Chora tua tristeza" e "Sebastiana". Ou seja, a voz de Gal e a aletrônica não são totalmente estranhas uma à outra. O que faz com que "Recanto" seja um CD altamente instigante são as canções compostas por Caetano (9 inéditas, duas já pré-existentes) para Gal cantar. Caetano tem contado nas entrevistas de lançamento do CD que teve a confirmação de suas intençôes de produzir esse disco com Gal ao vê-la em um show de voz e violão em Portugal, de onde tirou a imagem dos versos "roço a minha voz no meu cabelo", da letra de "Autotune autoerótico", uma das canções novas. Caetano criou canções de letras longas e melodias repetitivas, que adornadas com os arranjos eletrônicos soam como o oposto total do que se espera de uma cantora como Gal Costa, conhecida por seu apego à melodias mais rebuscadas e... melodiosas. Mas aí é que está o pulo do gato: se Caetano foi radical na composição das melodias, às vezes dura e lineares, efeito acentuado pelos arranjos, que poderiam ser estranhas à voz de Gal, ele criou letras que são, a todo momento, referências, explícitas ou não, à obra, vida e personalidade de Gal. Algumas pessoas têm insinuado pelos "recantos escuros" da internet uma possível passividade da cantora na produção desse disco, mas, incrivelmente, num disco totalmente idealizado por Caetano Veloso, Gal Costa NUNCA FOI TÃO ELA MESMA, e através das letras de Caetano Gal tem a ousadia até mesmo de tocar em assuntos delicados, como a postura de diva ostentada em certa fase da carreira ("era só fazer pose e cantar / presa ao dinheiro"), as cobranças sempre feitas a ela de realizar discos e shows "modernos", "revolucionários" ou "inventivos" ("Convidam-me a mudar o mundo / É fácil: nem tem que pensar / Nem ver o fundo"), dureza de viver ("Viver é um desastre que sucede a alguns"), a maternidade recente ("o menino salva as madrugadas") e mais um outro tanto de frases/flashes que falam muito sobre Gal, de uma forma como nunca antes, nem em "Vapor barato", "Baby", "Festa do interior" ou mesmo "Meu nome é Gal" aconteceu.

"Recanto" é um súper disco por aliar ótimas canções, arranjos que tentam a todo momento fugir dos sons convencionais e confortáveis, e uma cantora que canta com grande verdade. "Recanto" é, na minha opinião, depois do ousadíssimo "Gal", de 1969, o disco mais inusitado de Gal Costa. Muita gente vai estranhar, mas o disco já é um sucesso de crítica, apesar de uma (e não sei se outra) opinião negativa. Porém, como diz o verso final de "Recanto escuro": "Coisas sagradas permanecem / Nem o Demo as pode abalar / Espírito é o que enfim resulta / De corpo, alma, feitos: cantar"

O REPERTÓRIO
1- Recanto Escuro
2- Cara do mundo
3- Autotune autierótico
4- Tudo dói
5- Neguinho
6- O menino
7- Madre Deus
8- Mansidão
9- Sexo e dinheiro
10- Miami maculelê
11- Segunda

20 de mai. de 2011

Ouça o Cd "A Voz Da Mulher Na Obra De Taiguara", na Rádio UOL




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Ouça o CD "Ave Rara", de Sílvia Maria, na Rádio UOL




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Ouça o CD "A Dama Indigna", de Cida Moreira, na Rádio UOL




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Ouça o CD "Negra Melodia", de Zezé Motta, na Rádio UOL




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As Jóias de Zé Pedro


Em Salvador, cidade onde vivo, deixei de ir para danceterias por não ter mais a menor paciência para a pedância dos DJs locais que querem a todo custo serem londrinos ou coisa que o valha e enchem o saco com bate-estaca repetitivo e sem letras, uma coisa insuportável, absolutamente distante do que me é agradável aos ouvidos. Porém, a muito tempo gosto do DJ Zé Pedro. O que é uma coisa estranhíssima, levando em consideração que detesto música eletrônica. A grande diferença entre o DJ Zé Pedro e seus colegas pretensamente "internacionais" é que Zé assume a música brasileira! A muito tempo que descobri que é, sim, perfeitamente possível transformar a MPB em algo dançante. E essa descoberta foi á partir dos CDs de remixes de Zé Pedro, onde até Maria Bethânia e Nara Leão viraram música de pista de dança.

Agora o DJ Zé Pedro está abrindo uma gravadora, a Jóia Moderna. Seria mais uma gravadora como todas as outras, não fossemumd etalhe: a Jóia Moderna é especializada em CANTORAS! Sim, meus amigos, atendendo nossas preces (as minhas pelo menos) surge uma gravadora dedicada a lançar trabalhos de nossas queridas cantoras, especialmente aquelas que, porum motivo ou outro, foram alijadas do mercado fonográfico.

Na primeira fornada saíram, de cara, quatrro CDs absolutamente fantásticos: "Negra Melodia", de Zezé Motta, "A Dama Indigna", de Cida Moreira, "Ave Rara", de Sílvia Maria, e A Voz da Mulher na Obra de Taiguara. Um melhor do que o outro.

"Negra Melodia" traz de volta Zezé Motta ao disco, após 11 anos. Zezé, uma grande cantora que se deu melhor como atriz, aparece nesse CD cantando uma dupla de compositores chamados de "malditos", Luiz Melodia e Jards Macalé. O CD é ótimo, e os apreciadores de cantoras devem ter percebido jóias raras do repertório de Gal Costa ("Mal secreto") e Maria Bethânia ("Anjo exterminado") no revigorado e pouco usal repertório do CD. Nenhum dos grandes sucessos de Melodia e Macalé está no CD, mas o repertório é muito bom, e Zezé dispensa comentários.

Cida Moreira registra em "A Dama Indigna" o repertório de show de voz e piano que vem apresentando, e evoca nesse trabalho o espírito de seus primeiros discos, lançados no início dos anos 80, notadamente o primeiro, "Summertime", no qual, assim como nesse "Dama Indigna", Cida canta com seus estilo dramático, espirituoso, com um gostinho sutil de operístico, tanto clássicos da MPB quanto músicas internacionais.

Sílvia Maria é uma veterana absolutamente desconhecida do grande público. Eu mesmo não tinha ouvido falar dela até saber do surgimento da "Jóia Moderna", e fiquei encantado com o CD. Sílvia lançou apenas dois discos antes desse, o primeiro deles no início da década de 70. Uma grande cantora que precisa ser descoberta.

E finalmente "A Voz da Mulher na Obra de Taiguara" é um projeto que traz várias cantoras cantando composições de ou gravadas por Taiguara. Um disco excelente, onde as veteranas Claudette Soares, Cláudia, Fafá de Belém, Célia, Evinha, Cida Moreira, Vânia Bastos, Adyel Silva e Sílvia Maria, ao lado das cantoras mais recentes Luciana Mello, Aretha Marcos, Verônica Ferriani, Fernanda Porto e Teresa Cristina (esta, nuam especialíssima faixa bônus, "Modinha", unica música não composta por Taiguara, mas um dos maiores sucessos dele como cantor).

Como se não bastasse essas quatro belíssimas jóias, a gravadora está preparando novos CDs de Cláudia (cantando lados B da obra de Caetano Veloso) e Amelinha.

Que venham mais e mais CDs dessas grandes mulheres, e que mais e mais grandes estrelas deixadas em segundo plano pela indústria de discos tenham a chance de mostrar seu brilho de novo.

PS: o DJ Zé Pedro diz sempre "Graças a Deus o Brasil não tem só 5 cantoras". Concordo Zé!!!

6 de abr. de 2011

O Quintal de Ná


Ná Ozzetti é uma das melhores cantoras brasileiras. Não se pode dizer que essa seja uma verdade conhecida de todo mundo, uma vez que a cantora paulista jamais foi um sucesso de massas, mesmo com uma relativa visibilidade no Festival da Música Brasileira em 2000, tentativa frustrada da Rede Globo de reviver os áureos tempos dos Festivais da Canção da década de 60. Se o Festival da Rede Globo não revelou nenhum novo expoente da MPB, como os Festivais da Record nos anos 60, pelo menos um saldo positivo adveio desse evento: como premiação por ter ganho a categoria de Melhor Intérprete do Festival, Ná Ozzetti ganhou o direito de lançar um CD pela Som Livre, que saiu em 2001 e se chamou "Show", nome da canção de Luiz Tatit e Fábio Tagliaferri que Ná defendeu no tal festival. Se essa música era uma inédita do de um dos compositores que acompanharam a carreira de Ná (Luiz Tatit era - e ainda é - o grande mentor do Grupo Rumo, expoente da vanguarda Paulistana que no início da década de 80 tinha Ná como principal vocalista), o restante do CD "Show" foi todo formado pela releitura de grandes clássicos da Era de Ouro da MPB, não por acaso na maioria gravados originalmente por grandes cantoras, como Araci Cortes ("Linda flor"), Carmen Miranda ("Na batucada da vida" e "Adeus batucada"), Aracy de Almeida ("Último desejo"), Dalva de Oliveira ("Segredo"), Isaura Garcia ("Mensagem"), Elizeth Cardoso ("Canção de amor" e "As praias desertas"), Dolores Duran ("Não me culpes") e Maysa ("Meu mundo caiu"). A partir desse disco, Ná Ozzetti iniciou um longo período de discos de "intérprete", interrompendo o processo iniciado em 1994 com o disco "Ná" e que seguiu com "Estompim", em 1999, no qual passou a aparecer também como compositora de parte do repertório desses discos, tendo como parceiros nomes como Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Luis Tatit, entre outros. Em 2005 e 2006 Ná gravou com o pianista André Mehmari dois CDs e um DVD do projeto "Piano e Voz", e em 2009 lançou o elogiadíssimo CD "Balangandãs", no qual faz uma homenagem a Carmen Miranda, cantora de grande influência no trabalho de Ná.


Pois bem, após um hiato de 11 anos, Ná volta a aparecer como compositora no seu novo CD, intitulado "Meu Quintal", pela gravadora Borandá, através do selo Ná Records. Se nos seus trabalhos anteriores a compositora ficou em segundo plano, nesse novo trabalho 11 das 12 faixas do CD são parcerias de Ná Ozzetti com Luis Tatit, Zélia Duncan, Alice Ruiz, Asthur Nestrovski, Makely Ka, Carol Ribeiro e Neco Prates (não por acaso, marido da cantora). Somente uma das músicas, "A Velha Fiando", não é composição de Ná, e foi escrita por Dante Ozzetti (irmão da cantora) e Luiz Tatit. Ná Ozzetti não é letrista. Sua parte nas composições é a criação da melodia. E aí está a virtude e defeito do CD. O CD, a rigor, é muito bom. Porém Ná Ozzetti criou melodias difíceis de serem assimiladas, que faz com que o CD não tenha aquelas características intrínsecas a músicas de fácil apelo popular, sejam elas boas ou ruins: elas não são músicas "cantaroláveis" em uma primeira audição. O CD, como um todo, é daqueles que o ouvinte precisa escutar várias vezes seguidas para apreender as melodias, e daí começar a gostar. Porém passado o estranhamento inicial começa a adquirir peso a cada audição, à medida que as melodias vão ficando familiares. Não é um CD para o ouvinte comum acostumado a programação radiofônica. É difícil, as melodias são abertas, cheias de vagos... mas seria um contrasenso que uma artista que já está na cena musical do país a 30 anos sem nunca ter sido uma mega-star (e esse CD é comemoração desses 30 anos) tenha a preocupação de ser "popular", quando a essa altura do campeonato não faria mais sentido algum fazer concessões. Por outro lado, talvez músicas de compositores de fora do "grupo da Ná" pudessem trazer um colorido extra ao CD quando justapostas às melodias criadas pela cantora. Das 12 músicas, uma, "Entre o amor e o mar" (Ná e Luiz Tatit) já tinha sido lançada em 2006 pela cantora Jussara Silveira, e é a única não inédita.




Repertório do CD:


1. Meu Quintal (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

2. A Velha Fiando (Dante Ozzetti / Luiz Tatit)

3. Baú de Guardados (Ná Ozzetti / Alice Ruiz)

4. Tupi (Ná Ozzetti / Arthur Nestrovski)

5. Ser Estar (Ná Ozzetti / Alice Ruiz)

6. Equilíbrio (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

7. Onde a Vista Alcança (Ná Ozzetti / Makely Ka)

8. Chuva (Ná Ozzetti / Carol Ribeiro)

9. Acordo de Amor (Ná Ozzetti / Alice Ruiz / Neco Prates)

10. Sobrenatural (Né Ozzetti / Zélia Duncan)

11. Lingua Afiada (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

12. Entre o Amor e o Mar (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)


O CD tem uma certa preocupação ecológica, como se pode notar em versos como "Meu quintal / tem um rio / que ainda dá / pra navegar" ("Meu quintal"), "Fábricas vêm para os trópicos / fim das florestas / e o solo deserto / aquece o planeta / derrete as geleiras / aumenta o oceano" ("A velha fiando"), "Amanheceu / Bicho cantou / Mudou o gosto do ar" ("Tupi"), "Chuva que regou o meu jardim / Floriu" ("Chuva"). Mas também discorre sobre temas existenciais em "Baú de guardados" ("Trago fechado no peito um baú de guardados / Jóias, gemas e pérolas, que podem ofuscar meus olhos"), "Ser estar" ("Eu fui, eu sou, estou / Quem foi que disse / Que pode dizer / Quem eu sou?"), "Onde a vista alcança" ("Quando a vida descansa / Foi alguém que partiu / Fica só a fragrância / Vaga, sutil / Mas o tempo avança e fica esse fio"). E, como é de se esperar, não deixa de falar de amor, como em "Acordo de amor" ("Faço como meu amor / Uma cordo / Nunca fazer sombra / Um para o outro"), "Sobrenatural " ("Sobrenatural ver você se afastar / Quase transbordei de vazio e sal").


Em "Meu Quintal", Ná conta com os mesmos músicos que a acompanharam no bem sucedido CD anterior, "Balangandãs": Dante Ozzetti (violões), Mário Manga (guitarras, violoncelo e violão tenor), Sérgio Reze (bateria e gongos) e Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo). Como no CD anterior, os músicos fazem um trabalho de excelente qualidade. A produção é de Mário Manga (que, por acaso, é o orgulhoso papai da cantora Mariana Aydar). Nota à parte é o belíssimo trabalho gráfico do CD. O digipack é lindo, e o trabalho foi elaborado pelo pessoal do site http://www.taocriativo.com.br/ . Muito bom! Ah, o trabalho da cantora? Releia a primeira frase desse texto!! Como sempre, Ná está cantando muito bem.

4 de abr. de 2011

Minhas namoradas musicais


Paulo Gracindo, na década de 50, quando era ainda radialista e apresentava programas musicais na Rádio Nacional, apelidou a cantora Zezé Gonzaga de sua "Namorada Musical". De fato não havia nada entre Paulo e Zezé, mas a musicalidade e delicadeza do canto de Zezé permitiam esses arroubos sentimentais de Paulo.


Eu sempre tive minhas namoradas musicais, desde criança. Quando bem pequenininho, minhas duas primeiras paixões foram Joanna e Alcione. Isso foi no final da década de 70 para início dos anos 80. De fato minha paixão por essas duas não era exatamente musical, embora eu até hoje ache que as duas, cada uma a seu modo, tem valor e talento, eu na realidade achava as duas lindas e queria casar com elas (!!!). Coisas de criança.


De fato minha primeira paixão musical foi Rita Lee, que eu digo até hoje que foi a minha Xuxa. Sim, pq enquanto meus contemporâneos achavam a Rainha dos Baixinhos o máximo, eu, que até podia ver o programa de TV da Xuxa quando acordava cedo (o que nunca foi meu forte), mas minha predileção mesmo era a Rainha do Rock, com sua irreverência, graça e humor. Adorava a Rita e até hoje acho que ela é uma das maiores mulheres da MPB.


Se Rita foi a minha "Namorada Musical" na infância, eu acabei casando musicalmente com outra grande dama da minha adolescência. Gal Costa foi quem monopolizou todas as minhas atenções a partir dos meus 12 anos, e ainda é a minha cantora favorita, minha eterna namorada musical, embora vez por outra eu tenha lá minhas desavenças musicais com ela. Entre indas e vindas, Gal é uma paixão que certamente me acompanhará por toda a vida, mas nossa relação se tornou madura e abriu espaço para que outras pessoas surgissem.


Na minha fase adulto-jovem fui arrebatado por um trator de emoção, calor e voz chamado Cássia Eller. Cássia foi minha terceira Namorada Musical. Na década de 90 tive a certeza de que Cássia seria a maior intérperet brasileira durante muito tempo, até que aquela tragédia aconteceu... enfim...


Enquanto meu relacionamento com Cássia ia a todo calor eu conheci uma outra moça, esta com doce voz de cotovia, a paulistíssima Ná Ozzetti, com sua afinação perfeita, seu repertório entre o clássico e o inusitado, sua m usicalidade acima de qualquer suspeita. De fato foram exatamente Gal Costa e Cássia Eller quem me levaram a ouvir (e me apaixonar) por Ná, minha quarta namorada musical. A primeira vez que li o nome de Ná Ozzetti foi numa crítica de um disco de Gal (o jornalista falava de cantoras que seguiam o estilo de Gal, entre elas as mais destacadas, segundo ela, Marisa Monte e Ná Ozzetti. Ná "who"? eu me perguntei). Em seguida Cássia, que era também fãzoca de Ná, citou-a em diversas entrevistas, o que aumentou meu interesse e curiosidade... mas acho que aí eu já estava rendido por Maria Cristina Ozzetti.


Finalmente nos últimos anos uma outra menina tem me conquistado com sua despretenção, humildade, refinamento, bom gosto. Teresa Cristina é minha quinta namorada musical, e, apesar de algumas poucas vozes chatas dissonantes depondo contra, cada vez mais tenho certeza de que Teresa veio para ficar e fazer diferença na MPB. Cinco cantoras de uma legião que me encanta. Rita, Gal, Cássia, Ná e Teresa são uma pequena grande mostra de tudo de bacana que as mulheres fazem e fizeram pela música brasileira. Adoro-as.

10 de jun. de 2010

Geração 2000


De tempos em tempos a MPB passa por um bum de surgimento de cantoras, quando aparecem quase ao mesmo tempo várias artistas de talento, que se tornam figuras importantes do cenário da Música Brasileira. Foi assim no final dos anos 70, quando apareceram quase concomitantemente Zizi Possi, Angela Rô Rô, Elba Ramalho, Marina Lima, Olívia Byington, Joanna, Fátima Guedes, e outras, uma geração de artistas que ficou conhecida como "As Cantoras de 79", ano em que a maioria delas começou a aparecer na mídia.No início dos anos 90, na esteira do grande sucesso obtido por Marisa Monte em 1989, o fenômeno se repetiu, trazendo para as luzes os nomes de Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Zélia Duncan e Daniela Mercury, todas surgidas por volta de 1990.

Ainda é cedo para afirmar que o fenômeno se repete agora nos anos 2000, pelo simples fato de que elas estão ainda em início de carreira, mas uma nova geração vem se configurando. Destacado os casos de Maria Rita, Vanessa da Mata e Teresa Cristina, que surgiram um pouco antes, o boom a que me refiro se deu de 2005 para cá, com o surgimento de Roberta Sá, Ana Cañas, Mariana Aydar, Céu, Bruna Caram, Marina de La Riva, Maria Gadú, entre outras.

Apesar de muito elogios por parte da imprensa, tenho ouvido também inúmeras críticas a essa nova geração, principalmente dos afixionados pelas cantoras da brilhante geração dos anos 60 e 70, de Elis, Bethânia, Gal, Nana, Clara, etc. Essas críticas se resumem no seguinte ponto: essa nova geração não se sustentaria por muito tempo por lhe faltar "presença" e "identidade". Quando falam "presença", se referem ao fato de que essas pessoas não veem nessa nova geração a mesma força interpretativa daquelas cantoras citadas acima, e quando falam "identidade", referem-se a possibilidade delas serem muito semelhantes entre si em termos de timbre de voz e forma de cantar.

Não sou partidário dessas críticas, embora concorde em alguns pontos. Com relação às comparações com cantoras da geração passada, eu não concordo e acho absurdo qualquer avaliação do trabalho artístico de alguém, principalmente em música, pela comparação do que outro tenha feito. Gosto ou não de um disco, de uma voz, pelo que ela é em si, não pelo fato de achar que outro disco ou outra voz possa ser maior.

Com relação ao fato dessa nova geração se assemelhar muito em termos de timbre vocal, cncordo em parte. Mas não acho que isso faça com que nossas novas cantoras não tenham "identidade".

O que acontece é que não posso escutar um disco de alguma dessas cantoras que citei e não perceber ali uma dedicação à escolha do repertório, à criação dos arranjos, e, também, a beleza singela das vozes. Recentemente fiquei imensamente feliz e emocionado com uma campanha da Arezzo, no qual Roberta Sá, Mariana Aydar, Ana Cañas e Maria Gadú aparecem todas produzidas cantando o rockinho dos anos 80 "Totalmente Demais". Achei encantador e fiquei feliz pelas novas cantoras brasileiras terem representatividade suficiente como grupo, a ponto de estrelarem uma campanha de uma das mais famosas marcas de sapato do país. Logicamente que eu gosto mais de algumas dessas novas cantoras que de outras, mas por mais que eu ainda não tenha visto um timbre inconfundível de voz, tenho total prazer em ouvir a delicadeza de Roberta, Mariana, Marina, Ana, Céu, etc. Acho importante, depois de tantos anos de modismos radiofônicos via jabá, da falta de noção - e até de pudor - banalizada por coreografias acolhidas pela falta de gosto das classes A, B, C e D, nesse momento da ditadura do politicamente correto, que ainda existam pessoas que façam música pelo prazer de fazer música, se dediquem a pesquisar sonoridades, palavras, tentem cantar bonito. Mesmo que não surja uma nova Gal Costa (e não é preciso que surja), acho maravilhoso que Roberta Sá, Mariana Aydar, Ana Cañas, Marina de La Riva, Céu e Maria Gadú tenham a pretenção de honrar toda a grande história da MPB.

31 de mai. de 2010

Wanderléa e o estigma da "ternurinha"


Outro dia coloquei na minha mensagem pessoal do cabeçalho do MSN a frase "Wanderléa é um barato". De fato eu estava escutando os discos da fase Jovem Guarda da cantora, principal figura feminina das "jovens tardes de domingo". E, realmente, acho essa fase da Wanderléa um barato. As músicas são pueris, musicalmente bem primárias, mas Wandeca as interpretava com uma graça, um bom humor, que fazem esses discos deliciosos de se ouvir, se escutados descompromissadamente.

Nesse dia, um amigo meu que adoro, tem ótimo gosto musical e que respeito muito me mandou a seguinte mensagem: "Wanderléa é o erro".

Eu acho compreensível, mas discordo completamente. Apesar de gostar da fase Jovem Guarda dela, reconheço, como disse acima, que ali tudo era muito bobo, e muitas vezes irrelevante (apesar de delicioso). Acho natural que quem conhece somente essa fase do trabalho de Wanderléa não goste da cantora. Até por que, realmente, quase TODOS os hits de Wanderléa são dos anos 60.

Não quero dizer que Wanderléa devesse ter virado as costas para o seu passado musical. Pelo contrário. Acho que em qualquer show de Wanderléa é obrigatório que ela cante "Prova de fogo", "Pare o casamento", "Ternura", "Já nem sei" e "Foi assim". Porém Wanderléa teve uma fase logo após os anos 60, de 1972 até 1978, em que seu trabalho deu um salto qualitativo que nunca foi valorizado de fato. Wanderléa tentou (e conseguiu) amadurecer como cantora, construindo um repertório ao mesmo tempo coerente com seu passado "rockeiro", mas também adulto e inteligente. Quatro discos: "Wanderléa Maravilhosa", de 72, "Feito Gente", 75, "Vamos que Eu Já Vou" de 77 e "Mais que A Paixão", de 78, além de alguns compactos, em que Wanderléa colocou em sua voz grandes compositores como Egberto Gismonti, Gonzaguinha, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Fátima Guedes (inclusive foi Wanderléa a primeira cantora a gravar Fátima, a música "Bicho medo" em 1978), Jorge Mautner, Djavan, Luiz Melodia, Sueli Costa, Assis Valente, Joyce, Moraes Moreira, e, claro, Roberto e Erasmo. Esses são, disparado, os melhores discos de Wanderléa, porém em nenhum deles está presente algum grande sucesso da sua carreira. Talvez por isso algumas pessoas tenham se habituado a não perceber em Wanderléa a ótima cantora que ela é, sempre afinada, e, coisa importante, uma cantora personalíssima. Com seu vibrato marcante, Wanderléa não soa como nenhuma outra cantora brasileira. Ela é inconfundível.

O público saudosista da Jovem Guarda, muitas vezes extremamente conservador e moralista (tanto que Roberto Carlos, se distanciou da figura do "Brasa" se tornando um cantor romântico muitas vezes cafona pra chuchu, embora com lindas canções) aprisionou a cantora na eterna figura da "Ternurinha", e não permitiu a ela avançar, arriscar, e ser uma cantora distanciada da Jovem Guarda. Os discos gravados nos anos 70 não fizeram sucesso, devem ter vendido pouco, e já em 1981 Wanderléa gravou um disco reinterpretando alguns sucessos da Jovem Guarda em pot-pourri, e começou a injentar em seus discos, a partir de então raros, doses cavalares de sentimentalismo, trazendo Wanderléa de volta ao sucesso com músicas melosas como "Me ame ou me deixe", de 1989, e associando à cantora a tal aura de "o erro" que meu amigo vê nela. A imagem que se têm é que se trata de uma cantora que fez sucesso com um modismo musical nos anos 60 e se tornou uma cantora brega posteriormente. O problema é que, nesse meio tempo Wanderléa tentou e conseguiu mudar. Mas não levou o crédito por isso! Uma pena.

O bacana é que, de certa forma, afastada do mercado fonográfico (a partir da década de 80 Wanderléa gravou apenas 5 discos), ela parece ter, finalmente, adquirido independência e despreocupação em "ser comercial", se desamarrou da obrigação de ser sempre a "Ternurinha", e em 2008 gravou "Nova Estação" um disco muito bom, que, se não repete o ineditismo do repertório de sua fase genial dos anos 70, pelo menos resgata o bom gosto na escolha das músicas.

15 de mai. de 2010

Saudades de Cássia Eller


Cássia Eller era, depois de Gal Costa, minha cantora preferida. Adorava o timbre de voz único, a agressividade, a irreverência e a forma de interpretar dela. Assisti a uns 5 shows, mas não pude chorar a morte de Cássia. Na hora que soube do seu falecimento, eu estava sentado no sofá de um hospital ao lado de uma tia querida que estava muito doente, e que, meses depois, veio também a falecer. Na inteção de não entrar num clima pesado de morte e tristeza, mantive a serenidade e continuamos todos conversando como se tratasse apenas da morte de mais um artista louco. No entanto para mim, foi trágico. No dia seguinte eu segui com um grupo de amigos para acasa de um deles em Arembepe, onde passamos a festa de Fim de Ano. Mais uma vez não chorei a morte de minha querida cantora. Ao voltar para casa, coloquei um dos discos de Cássia para tocar, e chorei muito.

Mas, a partir de então, passei a escutar muito pouco os discos de Cássia. Continuo adorando-os e paro para ver ou ouví-la sempre que ela aparece na minha frente na TV, rádio ou Internet. Mas comecei a colocar pouco seus discos porque Cássia para mim era movimento, uma presença tão cheia de vida, que, antes, quando ouvia um disco dela, sabia que aquela energia ali era verdadeira e estava poresente em algum lugar desse mundo. E me emocionava por saber que ela era real. Para mim Cássia Eller foi a maior cantora dos anos 90. O grande diferencial dela, o que a destaca de Marisa Monte, por exemplo, é que Cássia não teve antecessoras. Ela surgiu pronta, maravilhosa e única. É difícil perceber uma "cantora-referência" de Cássia, como é Gal para Marisa, Elis para Leila Pinheiro, etc.

Quando Cássia ainda estava por aqui, eu ouvia um disco seu pensando em como seria o seu próximo CD, e isso me dava mais tesão em escutá-la. Com sua partida, essa emoção deixou de existir. Porém, nas últimas semanas tenho ouvido e visto muito a Cássia, e mais uma vez, choro de emoção e saudade. Cássia Eller faz muita falta.

9 de mai. de 2010

Com Teresa Cristina: bem melhor assim


Lembro que ouvi falar muito de Teresa Cristina antes de ouvi-la cantar. Até que minha curiosidade musical me levou a procurar alguma coisa dela, e lembro que a primeira coisa que escutei foi seu disco "A Vida Me Fez Assim", na rádio Uol. Imediatamente percebi que ali havia um trabalho muito consistente, mesmo que só depois tenha sabido que grande parte daquelas canções era composta pela própria Teresa. Gostei de sua voz, suave e sem virtuosismos exagerados, do jeito que eu acredito que é o jeito certo de se cantar samba, como o povo canta nas rodas, nas reuniões nos fundos de quintais. Me tornei um entusiasta do trabalho dessa moça imediataente.

Mas, por incrível que me pudesse parecer, haviam (e ainda há) várias vozes discordantes, que diziam se tratar de um embuste. De todas as críticas que ouvi sobre ela, a mais corriqueira seria a de que Teresa seria "sem graça" no palco. As críticas à sua voz e jeito de cantar eu nem levei em consideração, uma vez que o que ouvia me dava (e dá) a certeza de que, assim como Nara Leão, não é o volume de voz que faz de Teresa uma grande cantora. Até que, já anos depois (e já fã) pude assistir o show "Delicada" aqui em Salvador no palco do Teatro Castro Alves. Não achei Teresa "sem graça". Pelo contrário. Tímida, de fato, mas segura e muito simpática, e com um poder de comunicação com o público, uma coisa muito bonita. Assisti a esse show encantado, e a impressão que tive ao final do show, das pessoas que estavam comigo e no lotado teatro, foi que tínhamos visto uma linda amostra de música brasileira. E saí certo de que tinha visto o show de uma artista importante.

Depois disso tive o enorme prazer de ver Teresa ao lado de Jussara Silveira e Rita Ribeiro no DVD "Três Meninas do Brasil", e agora acabo de adquirir seu novo DVD, "Melhor Assim".

Pois Teresa está realmente "Melhor Assim". Cada dia mais segura de sua atuação, os dias de timidez, o canto parada de olhos fechados no centro do palco estão ficando cada vez mais para trás. Teresa está, aos poucos, assumindo sua postura de estrela, coisa que talvez ela não conseguisse encarnar antes.

Outro dia assisti no Youtube uma entrevista dela, em fala que não é uma pessoa tímida, mas que no palco ela fica tímida e trava, que essa coisa de ser cantora não foi uma coisa que cresceu com ela, que era uma coisa nova. Pois bem, isso está deixando de acontecer. Cantora, ótima compositora, Teresa está cada vez mais intérprete.

Nos extras do DVD, Seu Jorge, um de seus convidados (ao lado de Marisa Monte, Caetano Veloso, Lenine e Arlindo Cruz - e sua mãe, D. Hilda, cantando lindamente um antigo sucesso de Angela Maria) fala que acha de grande importância para o Rio de Janeiro que haja uma Teresa Cristina e seu canto seu firulas, suas composições. Eu também acho. E vou além: acho Teresa importante para o Brasil, ela está devolvendo ao samba a nobreza e importância que lhe foi roubada na década de 90, com aquela avalanche de grupos de "bregode" qua ainda infestam os programas dominicais. Para mim, ela é hoje, pela novidade que ela traz, pelos resgates que faz, a figura mais importante do samba. Um presente para a MPB, que está bem melhor assim, com ela.

8 de mai. de 2010

Divina e Enluarada


Num país sem memória cultural chegamos ao aniversário de 20 anos de morte de Elizeth Cardoso sem nenhuma comemoração especial. Nenhum especial de TV, nenhum box de CDs, nem mesmo o relançamento de títulos importantes de forma avulsa. Apenas a reedição de sua biografia, escrita por Sergio Cabral.

Elizeth, de certa forma, foi uma das lançadoras da Bossa-Nova, mas nunca foi uma cantora de bossa-nova. Se estilo intenso, sentimental, é claramente da era dos vozeirões, e se sua carreira se firmou nos anos 50, foi somente pelo motivo de Elizeth ter gravado seu primeiro disco já com 30 anos. Mas quis o destino que ela só se lançasse para o sucesso em 1950, quando gravou o grande sucesso e hoje clássico "Canção de amor". Quando Elizeth chegava, chegava ao mesmo tempo toda aquela geração que seria fundadora da Bossa-Nova: Tom Jobim, João Gilberto, Sílvia Telles, Johnny Alf... talvez por isso, por essa proximidade geracional, tenha sido possóvel que Elizeth, cantora típica da Era de Ouro, tenha passado pela transição para os anos 60 de forma tão bem sucedida. Por incrível que pareça, a grande maioria dos grandes sucessos da carreira de Elizeth, com exceção de "Canção de Amor", são contemporêneos ou posteriores ao auge da Bossa-Nova, ou seja, posteriores a 1958, ano em que ela gravou o hoje antológico "Canção do Amor Demais", disco no qual cantava somente músicas da dupla Jobim-Vinícius, e contava com o violão de João Gilberto em duas faixas. Esse disco é considerado um dos marcos iniciais da Bossa, e com ele Elizeth colou definitivamente sua voz à história do movimento que revolucionou a MPB.

A verdade é que a Bossa-Nova foi maravilhosa para a MPB, mas desastrosa para a carreira de muita gente. Foram poucos os que passaram incólumes para os anos 60. E mesmo assim, os que passaram adquiriram uma aura de "cafonas" que a partir de então passou a fazer parte de suas personalidades artísticas. Mas isso não aconteceu com Elizeth. Sem mudar em nada seu estilo denso, sua sofisticação e bom gosto para escolha de repertório possibilitaram que ela chegasse à década de 60 com mais prestígio que nunca, lançando muitos discos, obtendo grandes sucessos e até mesmo apresentando um programa de TV na Record, ao lado de Ciro Monteiro, o Bossaudade. Era uma espécie de versão saudosista do Fino da Bossa, de Elis e Jair Rodrigues, mas é bom lembrar que só os grandes nomes tinham programas musicais na TV Record. Como Wilson Simonal, Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, Elis e Jair, Geraldo Vandré, Chico e Nara.

Elizeth chegou á década de 70 ainda com sucesso (a hilariante "Eu bebo sim") e com o mesmo prestígio de sempre. E mesmo que aos poucos seu nome tenha se distanciado gradativamente do centro das atenções, na década de 80 ainda era uma cantora respeitadíssima.

É de Elizeth Cardoso um dos meis bonitos registros de show que existem na MPB. Gravado em fevereiro de 68 no Teatro João Caetano, o encontro entre Elizeth, Zimbo Trio e Jacob do Bandolim e seu grupo Época de Ouro é uma belíssima amostra da arte de Elizeth, onde ela se encontro com o tradicionalista Jacob (seu descobridor) e com o moderno Zimbo TRio, com seu som tipicamente pós Bossa-Nova. Lançado originalmente em 3 discos, dois em 1968 e um, com as sobras, em 1977, o show foi reeditado e lançado em seu formato original (em dois Cds) na caixa "Faxineira das Canções" a alguns anos atrás. É peça obrigatória para quem deseja apreciar o canto de rainha de Elizeth Cardoso, e entrar em contato também com duas das melhores amostras de música instrumental que se tem notícia na nossa história.

Divina e Enluarada foram duas alcunhas que acompanharam Elizeth. Sintomático que deuses e a lua estejam no céu, por que, realmente, Elieth Cardoso foi (e ainda é) uma cantora celestial.