23 de dez. de 2013

TOP 10 CANTORAS DO BRASIL 2013

Ainda não tive a oportunidade de ouvir todos os discos lançados por cantoras em 2013, alguns muito bem tratados pela crítica, por isso esse ranking dos meus 10 favoritos não pode ser considerado definitivo. É apenas a minha impressão, nesse final de ano, de quem foram as cantoras que fizeram os discos dos quais eu mais gostei.

10 - SER DE LUZ - MARIENE DE CASTRO
 
A cantora baiana em 2013 finalmente atingiu o reconhecimento nacional definitivo. Apesar de ser uma homenagem reverente a Clara Nunes, Mariene de Castro deixou claro que é uma cantora com brilho e qualidade própria e semeou seu caminho definitivo no mundo do samba. Agora basta colher os frutos.

9- VANESSA DA MATA CANTA TOM JOBIM
Em 2013 Vanessa da Mata foi a estrela de show patrocinado pela Nívea em homenagem a Tom Jobim. Apesar de criticado pelos puristas, a cantora fez um belo disco, fiel ao estilo apolíneo da música de Tom Jobim, mas sem deixar de trazer a música do Maestro Soberano para seu próprio universo musical, ao mesmo tempo pop e rural.

8 - FELIZ DA VIDA! - ANGELA RO RO
Definitivamente os dias malditos de fossa ficaram para trás. Angela Ro Ro agora é uma artista solar, que estampa o sorriso leve na capa de um disco com cheiro de mar, sol e brisa. Feliz da Vida! é um CD leve e bonito, com boas canções que captam com perfeição a jeito praiano do Rio Zona Sul. Para rolar no i-pod num passeio pela ciclovia de Ipanema.

7- É MELHOR SER - SIMONE
Simone está completando 40 anos de carreira e para comemorar fez um CD de repertório formado somente por músicas das melhores compositoras surgidas nesses 40 anos. Um disco despretensioso, mas ótimo, com a cantora baiana mostrando ótima forma vocal em seu estilo de cantar pessoal e maduro.

6 - CARTA DE AMOR - MARIA BETHÂNIA
Maria Bethânia continua uma artista surpreendente. A cada ano cantando melhor, não precisa mais provar nada a ninguém, e num registro de um show menos memorável em sua brilhante trajetória, com repertório em sua quase totalidade já gravado por ela anteriormente, ainda assim fez um disco extraordinário. Um disco de uma artista cada vez mais dona de si e de sua arte.

5 - ETERNA ALEGRIA - ALCIONE
A Marrom no decorrer de sua carreira escorregou em repertórios pouco inspirados, mas outras vezes ela acertou em cheio. E quando Alcione acerta, não tem para onde fugir, ela faz discos excelentes. É o caso desse ótimo CD de sambas, com a cantora cantando cada vez cantando melhor, senhora de sua voz, já um pouco mais suja com a idade, mas tirando partido do que poderia ser um defeito para outras artistas menos tarimbadas. Mas com Alcione é só eterna alegria.

4 - TOTATIANDO - ZÉLIA DUNCAN
Totatiando não foi lançado em CD, apenas em DVD. É o registro do show músico teatral em que Zélia Duncan interpreta somente músicas compostas (ou cantadas) por Luiz Tatit. Zélia deixou claríssimo nesse espetáculo a grande artista que é, não apenas como ótima compositora e dona de voz personalíssima, mas também como grande intérprete.

3- EMBALAR - NÁ OZZETTI
Ótima cantora, Ná Ozzetti é também uma compositora criativa e original. Versátil, Ná pode ser clássica, mas pode ser também inventiva e modernete quando quer, como nesse ótimo CD de repertório 100% inédito, onde, mais uma vez, a cantora coloca sua belíssima e precisa voz no posto de uma das melhores do país.

2 - ÁGUA LUSA - JUSSARA SILVEIRA
O novo CD de Jussara Silveira nos mostra o motivo pelo qual a cantora mineiro-baiana é considerada por Tiago Torres da Silva, porta português autor de todas as letras do CD, a cantora brasileira mais cheia de portucalidade. Cantando principalmente fados, Jussara fez um disco lindo, reverente e respeitoso ao mais típicos dos gêneros musicais portugueses, mais ainda assim coerente com a brasilidade e estilo suave da "dama do cassino".

1- RECANTO AO VIVO - GAL COSTA
Recanto Ao Vivo nada mais é que o registro em DVD e Cd do show que Gal Costa realizou em 2012, e seria somente isso não fosse por alguns motivos: o show era excelente e retirou Gal de anos de shows repetitivos e pouco inventivos, e a recolocou no posto de grande dama da MPB. Poderia parar por aí, mas no disco ao vivo, o repertório inédito que já era ótimo no CD de estúdio anterior criou corpo e vida, e fez Gal desabrochar, com voz belíssima e inteira, num dos grandes shows de sua carreira.

16 de dez. de 2013

Jussara Silveira e sua viagem pela "Água Lusa"

1. Na Companhia de Fadistas (Fado Margaridas) (Miguel ramos / Thiago Torres da Silva)
2. Vou Num Rio (Fado Licas) (Armando Machado / Thiago Torres da Silva)
3. Meu Amor Abre A Janela (Fado Santa Luzia) (Armando Machado / Thiago Torres da Silva)
4. O Mar Fala de Ti (Ernesto Leite / Thiago Torres da Silva)
5. Cantiga do Ladrão (Rão Kyao / Thiago Torres da Silva)
6. Voltarei À Minha Terra (Armandinho / Thiago Torres da Silva)
7. Uma Canção Por Acaso (Pedro Jóia / Thiago Torres da Silva)
8. Beijo Alentejano (Carlos Gonçalves / Thiago Torres da Silva)
9. O Nome do Mar (Rui Veloso / Thiago Torres da Silva)
10. Sereia (Fado Menor do Porto) (Jaime Cavalheiro / Thiago Torres da Silva)
11. Quase A Amanhecer (Pedro Jóia / Thiago Torres da Silva)


A muitos anos que considero Jussara Silveira uma das melhores cantoras brasileiras, numa lista de 5 ou 6. Dona de fina sensibilidade, a baiana nascida em Minas Gerais criou uma trajetória de coerência e bom gosto e mesmo sem ter se tornado uma mega-star, adquiriu prestígio e o patamar de cantora de nível nacional.

Jussara iniciou a carreira na década de 80, foi vocalista de Caetano Veloso, cantou em trio elétrico, mas seu temperamento e voz cool a levaram a construir sua trajetória longe da eletricidade do carnaval baiano. Estreou em disco em 1997, num disco em que já apareciam sugestões de um namoro com a música portuguesa, no fadinho baiano “Orientação”, de Tuzé de Abreu, onde numa letra sintética ela cantava “Lá na alma da gente tem um lugar um tempo bom, é preciso seguir o farol”. Gravou Dorival Caymmi em 1998 no belo disco “Canções de Caymmi”, e voltou a namorar com o fado em “Jussara” de 2002, nas gravações de “Fria claridade” (JM Amaral / PH de Melo) e “Caravela” (Maurício Pacheco). 

Sua discografia impecável conta ainda com os discos “Nobreza” e “Entre O Amor E O Mar” (ambos de 2006), “Três Meninas do Brasil” (2008), inesquecível encontro com Teresa Cristina e Rita Benneditto (ex-Ribeiro), “Ame Ou Se Mande” (onde mais uma vez há um namoro com Portugal na canção “Tenho dó das estrelas”, poema de Fernando Pessoa musicado por José Miguel Wisnik) e “Flor Bailarina” (ambos de 2011).

Artista do jeito doce (não a conheço pessoalmente, mas conheço pessoas que a conhecem, e essa é a opinião unânime), Jussara flertou com Angola no clipe de “A Volta de Xanduzinha” (TomZé), do disco de 2002 e em um disco inteiro dedicado à música deste país africano, o belo “Flor Bailarina”.

Agora Jussara completa sua volta ao mundo musical lusófono e lança “Água Lusa”, um disco no qual a cantora interpreta composições portuguesas, todas elas letradas pelo poeta português Tiago Torres da Silva.

Assim como o fez em “Flor bailarina”, Jussara empresta sua sensibilidade interpretativa ao fado, sem jamais deixar de ser baiana em essência. A primeira faixa do disco dá o recado numa letra em que Jussara se dirige aos puristas e tradicionalistas e pede licença e perdão para cantar o mais tradicional dos gêneros portugueses:


Na Companhia de Fadistas (Fado Margaridas)
(Miguel Ramos / Thiago Torres da Silva)
 


“Não é por ter amado o fado antigo
Que eu já posso dizer que sou fadista
Mas por lhe ter amor é que eu te digo
Que o fado fez em mim nova conquista
Mas por lhe ter amor é que eu te digo
Que o fado fez em mim nova conquista


Não sei o que há no Fado Margaridas
Que choram ao mesmo tempo que sorriem
Descubro neste fado tantas vidas
Que já nem sei dizer quantas vivi
Não sei o que há no Fado Margaridas
Que choram ao mesmo tempo que sorriem 

Talvez não seja aceite entre puristas
Talvez pensem que eu não tenho direito
Mas é na companhia de fadistas
Que eu sinto a vida a latejar no peito
Mas é na companhia de fadistas
Que eu sinto a vida a latejar no peito

Sei que não sou do fado por nascença
E só o posso ser por condição
Por isso ao começar peço licença
E assim que terminar peço perdão
Por isso ao começar peço licença
Mas só o posso amar de coração.”

Mesmo sem ser tradicional como Amália Rodrigues ou dramática como Mariza, as duas maiores cantoras de fado - a maior de todos os tempos e a maior da atualidade -, Jussara não perde de vista as características peculiares do gênero. Uma certa melancolia, um sentimento de saudosismo permeiam todo o disco. Mas Jussara em nenhum momento faz um pastiche de cantora de fado. É uma cantora brasileiríssima, que ousa, por exemplo, inserir uma batida de samba em “Uma Canção Por Acaso”. No disco também está presente uma composição de um dos maiores astros da música de Portugal, Rui Veloso, que contribuiu com “O Nome do Mar”. Até mesmo um procedimento comum no mundo do fado, a utilização de uma melodia famosa com letra especialmente feita para a cantora, está presente no disco. O “Fado Menor do Porto” aparece no disco de Jussara com poema de Tiago Torres da Silva como “Sereia”. Trata-se de um dos clássicos do repertório fadístico, já gravado pelas mesmas Amália (um dos grandes sucessos desta, “Não é desgraça ser pobre”) e Mariza (“Meus olhos que por alguém”, do CD “Fado Tradicional”, mais recente de Mariza, lançado em 2010). 

De estilo muito peculiar (cujo timbre de voz evoca eventualmente o de Gal Costa), Jussara empresta sua alma brasileira, ao mesmo tempo intimista e intensa, ao que há de mais bonito da música portuguesa.









2 de dez. de 2013

"Barco negro", a canção brasileira que se tornou um clássico de Portugal.


 O cantor e compositor Caco Velho

Em 2011 estive em Portugal pela primeira vez. Foi paixão a primeira vista. A luminosidade, o cheiro do Tejo, a comida deliciosa, a simpatia cortês e reservada dos portugueses. A música portuguesa!

Obviamente eu já conhecia alguns clássicos da música portuguesa, a grande maioria fados eternizados pela voz de Amália Rodrigues. Porém a verdade é que para a minha geração talvez a figura de Amália seja apenas um nome eventualmente falado e pouco ouvido. Aliás, a música portuguesa de modo geral é muito pouco prestigiada por nós, brasileiros, apesar de sua qualidade e mesmo idioma.

A partir dessa primeira viagem a Portugal eu conheci o trabalho da maior fadista da atualidade. Trata-se de Mariza, a mais importante cantora viva de Portugal, popularíssima não apenas em terras lusas, mas que realiza frequentes concertos em diversas partes do mundo. Talvez Mariza seja dentre as cantoras não brasileiras a que eu mais gosto. Tenho todos os seus discos, DVDs e assisti a dois shows seus, um em Portugal e um no Rio de Janeiro. Considero-a uma das maiores cantoras vivas da atualidade.

Mariza canta "Barco negro"

Uma das canções gravadas por Mariza chama-se "Barco negro". Trata-se de um tema que fala de uma mulher que chora na praia ao ver seu homem partir em um barco negro ao passo em que as mulheres mais velhas da praia dizem para ela que ele não mais voltará. "Barco negro" é, na realidade, um dos maiores sucessos da carreira de Amália Rodrigues, e Mariza o regravou.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir que "Barco negro" é na realidade uma composição brasileira do famoso sambista Caco Velho parceria dele com um compositor desconhecido de nome Piratini. 

"Mãe preta", com o Quarteto Tocantins. Gravação de 1943

Em 1943 o pouco famoso grupo Quarteto Tocantins gravou a toada "Mãe preta", uma música que falava em uma mãe de leite escrava que dá de mamar ao filho branco do senhor enquanto seu próprio filho apanha na senzala. Essa música pouco conhecida (não chegou a ser sucesso e o próprio Quarteto Tocantins gravou poucos discos após essa gravação) acabou caindo nas graças da fadista Maria da Conceição e foi gravada em Portugal em 1955, fazendo grande sucesso. Porém era o período da ditadura fascista de Salazar e a letra falando em escravidão não agradou ao governo, que tratou de proibi-la.


Uma das principais características do fado é que para uma mesma melodia existem várias letras diferentes e cada cantor pode interpretar uma mesma música com poemas totalmente diferentes. talvez pensando nisso o letrista português David-Mourão Ferreira escreveu uma nova letra e "Mãe preta" se transformou em "Barco negro", sendo gravada então por Amália Rodrigues e se tornando um clássico da música portuguesa. Uma música tão célebre que acabou sendo regravada por diversos intérpretes em Portugal e no Brasil, como Ney Matogrosso (que a gravou duas vezes) e Joanna, num CD gravado ao vivo em Portugal.

"Barco negro - Amália Rodrigues

Como um barco que parte de um porto e retorna anos depois, "Mãe preta" deixou o Brasil como uma música pouco conhecida para se tornar a clássica "Barco negro" no outro lado do oceano e retornar até nós (e até mim) como uma das mais fiéis representantes da música portuguesa.

Uma linda música com uma história pitoresca que gostaria de dividir com quem possa ler esse texto.

Ney Matogrosso - "Barco negro"

"Barco negro" - Joanna

26 de nov. de 2013

É melhor Ser - Simone


As novas gerações, em especial as novas cantoras, às vezes se preocupam tanto em fazer discos em que sonoridades, arranjos e composições sejam o supra-sumo da vanguarda que esquecem de uma coisa fundamental para uma CANTORA: identidade. Aquele algo mais que faz com que um disco, uma música tenha A CARA do intérprete que assina a obra.

Simone, seguramente, não é uma intérprete sem identidade. Não precisa conhecer uma música dela para se identificar imediatamente seu timbre, seu estilo.

Simone acaba de lançar um novo CD, em comemoração aos seus 40 anos de carreira. Chama-se "É Melhor Ser" e se trata de uma coletânea de canções compostas apenas por mulheres, as compositoras que surgiram e se firmaram nesses 40 anos em que Simone tem sido presença importante no panorama da MPB.

Alzira Espíndola, Teresa Cristina, Zélia Duncan, Angela Ro Ro, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Joyce, Fátima Guedes, Rita Lee, Dona Ivone Lara e Joanna, além da própria Simone e de uma letra de Fernanda Montenegro, foram as escolhidas por Simone, como ela mesma disse em entrevista recente em que ela falou ter usado o www.cantorasdobrasil.com.br na pesquisa de quem seriam as tais compositoras.

Pois bem. Não esperem no novo CD de Simone arroubos de vanguardices. Trata-se de mais um disco de Simone. Coerente com a personalidade e estilo da cantora que é chamada de "Cigarra". E isso é bom!

Músicas conhecidíssimas como Só nos resta viver, Mutante, Charme do mundo e Acreditar não são modernizadas numa busca inútil pelo novo, mas na voz de Simone são outras. São gravações DE SIMONE e ponto final!

Algumas pessoas vão amar. Outras vão odiar. Eu, particularmente, gostei. Mesmo que certas gravações originais sejam imbatíveis, em nenhum momento o disco de Simone resvala no supérfluo. É um disco de ótimo repertório, com uma cantora excelente em ótima forma. No seu aniversário de 40 anos, Simone comemora elegante e discretamente e nos dá um belo presente.

PS: Feliz de, finalmente, ter um grande nome da MPB reconhecendo o valor de Teresa Cristina como compositora, com sua "Trégua suspensa". Já estava mais do que na hora e é merecidíssimo. Lembrando que, no show, Teresa é brindada com outra música no repertório, seu samba "Candeeiro".

23 de nov. de 2013

Clara Nunes

 

 

 

 


A Mineira Guerreira Filha de Ogum com Inhansã.


Mineira, guerreira, sabiá. 

São muitos os adjetivos criados pelos compositores para definir Clara Nunes. Em 2013 completam-se 30 anos de sua morte e, entre homenagens sinceras (mesmo que bastante criticadas pelos puristas e fãs mais exigentes) de crias interpretativas de Clara, como Fabiana Cozza, Mariene de Castro e Carla Visi, esse texto pode parecer atrasado.

Mas, por alguma coincidência Clara é uma cantora que voltou a tocar com frequencia aqui em casa. Sua discografia traça uma parábola ascendente que em nenhum momento (até por sua morte trágica e repentina) ameaçou a curva de descida.

Clara começou nos anos 60 como cantora romântica, talvez navegando nas águas do sucesso de Altemar Dutra. Mas já em seu segundo disco atingiu o sucesso nacional com um samba inédito de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, "Você passa eu acho graça". Era 1968 e a partir daí Clara marcou seu nome a ferro e fogo na história do samba, da música brasileira e tornou-se uma cantora divisora de águas. Foi Clara a primeira artista a romper com um tabu existentes nas gravadoras nacionais de que mulheres não vendiam muitos discos. O seu sucesso foi tamanho que motivou outras gravadoras a investirem em suas sambistas, tendo a Tapecar trazido Beth Carvalho (que já era muito famosa por seu grande sucesso "Andanças") para o mundo do samba, e a Philips revelado Alcione, tudo para concorrer com o sucesso de Clara na Odeon.

Ê baiana, Tristeza pé no chão, Conto de areia, O mar serenou, Canto das três raças, As forças da natureza, Guerreira, Morena de Angola, Portela na avenida, Nação, são apenas os nomes de alguns grandes sucessos de Clara Nunes. Mas cada um de seus 15 discos solo lançados em vida é um rosário de gravações brilhantes, fundamentais, exemplares. Clara era uma AULA de canto, de interpretação, de voz, de intenções.






21 de nov. de 2013

Feliz da Vida é uma brisa numa tarde de sol carioca!

1. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
2. De Amor e Mar (Ângela Ro Ro / Ricardo Mac Cord)
3. Vou Por Aí... (Ângela Ro Ro / Antonio Adolfo)
4. Capital do Amor (Ângela Ro Ro / Jorge Vercillo) - com Jorge Vercillo
5. Ela sumiu (Ângela Ro Ro)
6. Muitas Canções (Ângela Ro Ro / Lana Braga)
7. Romance Espetacular (Ângela Ro Ro / Carlota Marques)
8. Fogueira (Ângela Ro Ro) - com Maria Bethânia
9. Salve Jorge! (Ângela Ro Ro) - com Diogo Nogueira
10. Pinto Velho (Ângela Ro Ro)
11. Opium (Ângela Ro Ro)
12. Beijos na Boca (Ângela Ro Ro / Sandra de Sá) - com Sandra de Sá
13. Tudo Por Um Triz (Ângela Ro Ro / Mario de Castro)
14. Canto Livre (Ângela Ro Ro / Ana Carolina)
15. Malandragem (Cazuza / Frejat) - com Freját
16. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
17. Amor Meu Grande Amor (Ângela Ro Ro / Ana Terra)

Deve ser difícil para um cantor ou cantora fazer um primeiro disco que seja uma obra-prima definitiva. Ele se torna refém desse primeiro trabalho cheio de frescor e inspiração pelo resto de sua trajetória, e tudo que ele faça posteriormente será, de um modo ou outro, comparado a esse primeiro momento.

Angela Rô Rô é desse time. Seu primeiro disco, lançado em 1979 é tão bom, tão especial, tão inspirado, bem tocado e bem cantado, que todos os discos feitos por Angela até agora acabam sofrendo de uma injusta comparação.

Não é o caso de dizer que somente o primeiro disco de Angela seja bom. Não é isso. A grande maioria dos registros da blueseira irreverente de alma cheia de soul e fossa é de excelente qualidade. Mas para se avaliar qualquer novo disco de Angela, nós precisamos descartar esse primeiro disco, para não corrermos o risco da injustiça.
Dito isso, vamos lá: Angela está de disco novo na praça. A cantora que criou fama (muito por preconceito e injustiça) de agressiva nos anos 80 a muitos anos se livrou dos pesos dos vícios e da fossa que, segundo ela mesma, transformaram sua vida num inferno na década de 90, e hoje é uma mulher muito mais leve, não só por conta dos muitos quilos perdidos, mas leve também na alma.

O novo CD (e DVD) de Angela chama-se "Feliz da Vida!" e é uma brisa fresca numa tarde de verão carioca. Essa foi a sensação que me veio ao escutar as novas canções de Angela. A de uma delicioso passeio pela bela orla da Zona Sul do Rio numa tarde de verão, olhando o mar e as montanhas, num estado de total prazer. Feliz da Vida não poderia ser um título mais adequado.

A maioria das canções é inédita, e o destaque é a faixa título, parceria com Paulinho Moska, que aparece em duas versões: uma com o parceiro, a outra somente na voz (sempre belíssima) de Angela. Com exceção de "Fogueira", "Amor meu grande amor" e "Malandragem" (que se justificam pelas participações especiais de Maria Bethânia e Freját, que fizeram sucesso com as duas primeiras e, novamente, de Freját, que compôs a terceira para Angela, mas que esta jamais gravou, deixando o privilégio de lançá-la com imenso sucesso para Cássia Eller), todas as músicas são novas. Jorge Vercilo aparece cantando com Angela outro destaque, a faixa "Capital do amor", mais uma canção com cheiro de Zona Sul carioca.

Angela Rô Rô fez um disco delicioso de se escutar. É um disco simples, despretensioso, ensolarado. Me deixou feliz da vida!

Ana Carolina...



O novo Cd de Ana Carolina é um suplício de se escutar. O que era apenas uma ameaça ao ouvir os primeiros versos da primeira faixa, de nome “Pole dance” (“Ela rebola, rebola, rebola, ela quer dólar, quer dólar, quer dólar...”) se transformou, após atenta audição, na concretização de meus mais fortes temores: Não dá mais para dizer que Ana Carolina está ficando chata. Ela já ficou chata, no mínimo, a uns dois ou três discos atrás.

Não dá mais pra aguentar aquelas letras em que a cantora veste a capa da cafajeste/pegadora (Sei do inferno que eu criei / Na sua vida / Por isso é que você me quer / Então vai ter que me encarar -“Esperta”), o erotismo forçado (Pra distrair ela lê, seu olhar de estilingue / Acerta todo o cabaré, homem e mulher / É muito mais do que bilíngue / Faz com a língua o que quiser – “Pole Dance”), as letras do tipo trava língua repleta de citações de nomes de gente que Ana acha que é chique citar (Será que eu sou capaz de tal canção? / Que tenha algo em excesso ou algo excelso / Como uma peça, um ato de Zé Celso / Como um poema de Augusto de Campos / Ou como um rock de Arnaldo Antunes.... – “Uma Canção Para Ti”), e, as piores, as letras em que Ana Carolina se transforma na amante psicótica (Sei que fui fanática, suicida / Abri mão da própria vida / Fui refém e fui bandida / Por querer te amar demais – “Combustível”).

É sintomático que a melhor música do disco seja um pastiche de Chico Buarque. “A resposta da Rita” é um samba feito sobre a letra e a melodia de “A Rita” de Chico Buarque, no qual a personagem da canção original responde ao compositor, numa letra interessante. Mas precisou a inspiração do grande Chico para motivar o talvez único momento alto do disco inteiro (e com a participação de Chico contracantando a sua própria música). No resto o Cd é enfadonho, chato, repetitivo.

Resta o vozeirão cheio de personalidade de Ana, que, quando não carrega nas tintas, é boa cantora. Talvez esteja mais do que na hora de Ana largar a mão da composição e fazer um disco somente de músicas dos outros, daquelas já conhecidas e batidas, mas que não são clássicas à toa.

14 de mar. de 2012

"Fábula" - Cris Braun



Fábula (Warner / Tratore)

1. Ossos (Wado)
2. Cidade Grande (Wado)
3. Tanto faz Para O Amor (Lucas Santtana / Quito Ribeiro)
4. Deve Ser Assim (Alvin L. / Marina Lima)
5. Tão Feliz (Cris Braun / Billy Brandão)
6. Artérias (Cris Braun) - instrumental
7. Viga (Fernando Fiúza / Cris Braun)
8. Oscilante (Fernando Fiúza)
9. E O Amor Calou (Cris Braun)
10. Terra do Nunca Mais (Cris Braun) - instrumental
11. Memória Da Flor (Jr. Almeida / Zé Paulo) - com Celso Fonseca

A "Fábula" de Cris Braun.


Cris Braun é uma dessas artistas brasileiras que o Brasil deveria conhecer mais. Cantora de voz quente, compositora inspirada, Cris tem prestígio e está sempre cercada de nomes importantes da MPB. Lançou o primeiro CD, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” em 1997, guiada pelos braços de Marina Lima, sendo a primeira artistas lançada pelo selo fonográfico desta. “Atemporal”, de 2005, trazia a participação especialíssima de Paula Toller. Estes são apenas dois exemplos do pessoal que circula ao redor de Cris.



Gaúcha, atualmente Cris reside em Maceió, mas garante que a Internet torna as fronteiras cada vez mais próximas. Ex membro do cultuado grupo Sex Beatles, que também revelou o compositor e cantor Alvin L, agora Cris está lançando seu terceiro CD, “Fábula”, um belo poema/musical que trata de forma leve a respeito das durezas (e suavidades) da vida. Mais uma vez cercada de figuras importantes e talentosas (embora nem sempre conhecidos do grande público): Celso Fonseca, Wado, Lucas Santana, Billy Brandão.

Cris Braun concedeu entrevista para Doug Carvalho por e-mail, e falou de sua carreira, de seu novo CD e de projetos futuros. Leia a entrevista, saboreie os vídeos, compre o CD.



DOUG CARVALHO: “Fábula” é o seu terceiro CD solo. Quando vc prepara o repertório para um CD, como é feita a escolha das canções? Elas vão surgindo naturalmente e formando um repertório ou você tem um conceito desde o início que vai guiando a escolha das canções?

CRIS BRAUN: É muito variável. "Fábula" foi se mostrando, só tinha uma canção e a idéia que queria era a historinha deste ser humaninho que vem, vive e vai embora.

DOUG: Como foi a feitura de “Fábula”? Eu sei que vc demorou um bom tempo preparando ele. O intervalo entre o anterior “Atemporal” e o atual é de sete anos. Por qual motivo demorou para concluir esse disco?

CRIS: Demanda externa, outros assuntos, o fato de fazer entre Rio e Maceió, construção mesmo.

DOUG: De que fala a sua “Fábula”? E qual o motivo desse título?

CRIS: Nascemos inocentes e puros, vivemos e temos todas as experiências de amor, perda, ambição, raiva, alegria, constatações sobre a dureza de se viver nas grandes cidades e na melhor das hipóteses, um dia, reencontramos os sentidos e a paz ! Fala disso. E por isso mesmo "Fábula", embora nao tenha moral da história.

DOUG: Você tem alguma canção favorita nesse CD?

CRIS: "Terra do nunca mais" (NOTA: uma das duas canções instrumentais do CD)

DOUG: O leitor que tiver a curiosidade de escutar o CD pode fazer em algum site na Internet?

CRIS: www.crisbraun.com.br. E lá baixa os outros tb.

DOUG: Em recente entrevista eu li que você, a um tempo atrás, ficou meio “triste” ao se ver no panorama musical brasileiro, por não ter estourado comercialmente lá atrás, quando gravou o primeiro CD, ao mesmo tempo que também não é parte da chamada “Nova MPB”, mas que depois sacou que tinha um lugar para você. Quando li essa matéria, fiquei meio surpreso pelo fato de não ter “estourado” poder entristecer você, uma vez que a forma como você conduz sua carreira não me passar um interesse de ser comercial. Tudo em seu trabalho me dá a sensação de você ser um desses artistas para quem o resultado artístico é bem mais importante que o valor comercial puramente. Como funciona para você essa questão do resultado artístico versus comercialização da arte?

CRIS: O que eu quis dizer alí, é que o fato de não ter tido mais projeção lá atrás, fazia com que eu nesse momento não soubesse em que lugar estava, para onde me dirigir, e se fazer um disco fazia sentido. Isto me deixou triste, não não ter estourado. Mas passou logo (risos). Todos desejamos viver do que fazemos e ter o reconhecimento merecido. Mas não deixo de fazer o que tenho que fazer, mesmo que não seja exatamente como se quer.

DOUG: Quando cada um dos seus três CDs solos foram gravados, você estava morando em cidades diferentes. Em “Cuidado com pessoas como eu” você morava no Rio de Janeiro, “Atemporal” você morava em Teresópolis, e agora com “Fábula” você está morando em Maceió. Eu tenho a sensação de que cada um desses discos reflete o clima dessas cidades. No “Cuidado” a gente percebe uma coisa mais urbana, no “Atemporal” um certo bucolismo do contato com a natureza. Essa impressão minha é pertinente? Se sim, o que há do clima de Maceió em “Fábula”?

CRIS: "Fábula" tá na cidade e tá no mar. "Fábula" tá na alma.

DOUG: Algumas canções compostas por você tiveram sucesso nas vozes de outros cantores, principalmente “Como é que eu vou embora”, com o Kid Abelha, “Menos carnaval” (que eu adoro, por sinal), com Belô Velloso e “Vênus”, com a Daúde. Já pensou em gravar essas músicas?

CRIS: Sim, tenho planos secretos (risos)!!

DOUG: DVD é uma possibilidade?

CRIS: Do jeito que eu gostaria de fazer seria muito caro. Um dia, talvez.

DOUG: Vc é muito ligada em música clássica. Vc acredita que seu modo de compor incorpora elementos da música erudita?

CRIS: Mais no desejo do que de fato. Mas acho que em algum lugar, sim.

DOUG: Cris, o mercado musical de hoje é complicado. Existe a questão da pirataria e do jabá. Pra tocar no rádio o artista tem que ser contratado de uma grande gravadora ou já ser muito conhecido. Como é para você divulgar o seu trabalho no Brasil inteiro? Morar numa cidade que não é considerada um centro cultural como São Paulo e Rio dificulta, ou a Internet consegue eliminar essa questão geográfica?

CRIS: A Internet é gloriosa neste sentido!

DOUG: Em “Fábula” você gravou duas músicas de Wado, e em 2011 o trabalho dele foi muito bem recebido pela crítica. Como foi seu contato com ele?

CRIS: Wado mora aqui, temos a mesma turminha, e eu admiro muito mesmo o trabalho dele.

DOUG: Essa entrevista está sendo feita para um blog e site sobre cantoras brasileiras. Em seu segundo CD você gravou a música “Nenhuma dor”, lançada em 1967 por Gal Costa, no “Cuidado com Pessoas como eu” você gravou “Bom conselho”, que a Bethânia gravou. Vc se considera uma cantora influenciada por outras cantoras brasileiras?

CRIS: Não, eu gosto de música boa, e ouço muita coisa. Não sinto influências diretas não.

DOUG: No Brasil e fora, quem são os artistas que têm tocado no seu aparelho de som?

CRIS: Wado, Lucas Santtana, Pj Harvey, Silva, Leonard Cohen, Mônica Salmaso, Arvo Part, Bjork, Junior Almeida, Kd Lang, bandas de post rock geralmente instrumentais, Gal, Tiê, galera de Pernambuco, muita instrumental mesmo, tipo orquestra de berimbaus.... muita coisa.

DOUG: Vc foi membro do grupo “Sex Beatles”. Como foi esse período de sua carreira?

CRIS: Rock and roll (risos).

DOUG: Você pretende levar o show de “Fábula” pelo país? Como funciona sua agenda de shows?

CRIS: Pretendo ir aonde os recursos permitirem. Tô indo. (risos)

DOUG: Quero agradecer imensamente por essa entrevista. Sinta-se à vontade para mandar sua mensagem para os que a lerem.

CRIS: Só agradecimentos!! E ... “Gentem”, procurem ser originais e curiosos para ouvir música!! Beijocas!

13 de mar. de 2012

Ouça as canções de "Fábula", o novo CD de Cris Braun























"Cuidado Com Pessoas Como Eu"

Assista o Clip de "Cuidado Com Pessoas Como Eu" (Cris Braun / William Magalhães / Nilo Romero), música do primeiro CD solo de Cris Braun, lançado em 1997.

9 de dez. de 2011

O Recanto de Gal Costa.


Gal Costa está de volta, depois de uma lacuna de 6 anos sem gravar (5, se formos contar os CDs "Gal Costa Live at Blue Note" e "Gal Costa Ao Vivo", de 2006). O último disco de estúdio de Gal foi "Hoje", lançado em 2005, no qual a cantora apresentava ao grande público compositores pouco conhecidos, uma coleção de boas canções, mas que, por motivos mais que sabidos - ou mesmo impossíveis de definir - não fizeram sucesso e ainda que o disco tenha recebido boas críticas na época de seu lançamento, permanece pouco conhecido do grande público. O fato é que somente os fãs mais dedicados - e Gal Costa os tem aos montes - conheceram o CD.

Acaba de ser lançado pela gravadora Universal o CD "Recanto". No disco, Gal interpreta 11 canções de Caetano Veloso, que também produziu o CD. Bom... dizer que Caetano produziu o CD e compôs as músicas é uma meia evrdade. O fato é que "Recanto" nasceu de uma idéia de Caetano, que propôs à cantora gravar um CD produzido por ele, somente com canções dele e com sonoridade imaginada por ele, centrada em programações eletrônicas. Dada a proximidade entre os dois artistas, é mais que claro que Gal topou o projeto.

Depois de anos com uma incômoda sensação de que minha adorada cantora preferida iria se tornar uma espécie de súper-Emílio Santiago, relendo com competência mas sem grandes inventividades clássicos ultra conhecidos, Gal gravou um dos CDs mais instigantes e profundos de sua carreira.

Nunca, em nenhum de seus discos anteriores, nem mesmo os mais badalados pela crítica ou os maiores sucessos de público, Gal Costa esteve tão desnudada. Não acho que o fato de ter a maior parte dos arranjos pautados em programações eletrônicas faça de "Recanto" um CD 'moderno.' Ora, a eletrônica não é nenhuma novidade no cenário da MPB, a anos tem figurado em discos de vários artistas do Brasil, como Adriana Calcanhotto, Fernanda Porto, Vanessa da Mata (que estourou nacionalmente com um remix de sua canção "Ai ai ai ai"), só para ficar nas cantoras, foco desse blog. Até a própria Gal Costa já flertou com a eletrônica em seu CD "Aquele Frevo Axé", de 1998, produzido por Celso Fonseca, além de já ter tido algumas de suas músicas remixadas, como já aconteceu com suas gravações de "Socorro", "Chora tua tristeza" e "Sebastiana". Ou seja, a voz de Gal e a aletrônica não são totalmente estranhas uma à outra. O que faz com que "Recanto" seja um CD altamente instigante são as canções compostas por Caetano (9 inéditas, duas já pré-existentes) para Gal cantar. Caetano tem contado nas entrevistas de lançamento do CD que teve a confirmação de suas intençôes de produzir esse disco com Gal ao vê-la em um show de voz e violão em Portugal, de onde tirou a imagem dos versos "roço a minha voz no meu cabelo", da letra de "Autotune autoerótico", uma das canções novas. Caetano criou canções de letras longas e melodias repetitivas, que adornadas com os arranjos eletrônicos soam como o oposto total do que se espera de uma cantora como Gal Costa, conhecida por seu apego à melodias mais rebuscadas e... melodiosas. Mas aí é que está o pulo do gato: se Caetano foi radical na composição das melodias, às vezes dura e lineares, efeito acentuado pelos arranjos, que poderiam ser estranhas à voz de Gal, ele criou letras que são, a todo momento, referências, explícitas ou não, à obra, vida e personalidade de Gal. Algumas pessoas têm insinuado pelos "recantos escuros" da internet uma possível passividade da cantora na produção desse disco, mas, incrivelmente, num disco totalmente idealizado por Caetano Veloso, Gal Costa NUNCA FOI TÃO ELA MESMA, e através das letras de Caetano Gal tem a ousadia até mesmo de tocar em assuntos delicados, como a postura de diva ostentada em certa fase da carreira ("era só fazer pose e cantar / presa ao dinheiro"), as cobranças sempre feitas a ela de realizar discos e shows "modernos", "revolucionários" ou "inventivos" ("Convidam-me a mudar o mundo / É fácil: nem tem que pensar / Nem ver o fundo"), dureza de viver ("Viver é um desastre que sucede a alguns"), a maternidade recente ("o menino salva as madrugadas") e mais um outro tanto de frases/flashes que falam muito sobre Gal, de uma forma como nunca antes, nem em "Vapor barato", "Baby", "Festa do interior" ou mesmo "Meu nome é Gal" aconteceu.

"Recanto" é um súper disco por aliar ótimas canções, arranjos que tentam a todo momento fugir dos sons convencionais e confortáveis, e uma cantora que canta com grande verdade. "Recanto" é, na minha opinião, depois do ousadíssimo "Gal", de 1969, o disco mais inusitado de Gal Costa. Muita gente vai estranhar, mas o disco já é um sucesso de crítica, apesar de uma (e não sei se outra) opinião negativa. Porém, como diz o verso final de "Recanto escuro": "Coisas sagradas permanecem / Nem o Demo as pode abalar / Espírito é o que enfim resulta / De corpo, alma, feitos: cantar"

O REPERTÓRIO
1- Recanto Escuro
2- Cara do mundo
3- Autotune autierótico
4- Tudo dói
5- Neguinho
6- O menino
7- Madre Deus
8- Mansidão
9- Sexo e dinheiro
10- Miami maculelê
11- Segunda

20 de mai. de 2011

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As Jóias de Zé Pedro


Em Salvador, cidade onde vivo, deixei de ir para danceterias por não ter mais a menor paciência para a pedância dos DJs locais que querem a todo custo serem londrinos ou coisa que o valha e enchem o saco com bate-estaca repetitivo e sem letras, uma coisa insuportável, absolutamente distante do que me é agradável aos ouvidos. Porém, a muito tempo gosto do DJ Zé Pedro. O que é uma coisa estranhíssima, levando em consideração que detesto música eletrônica. A grande diferença entre o DJ Zé Pedro e seus colegas pretensamente "internacionais" é que Zé assume a música brasileira! A muito tempo que descobri que é, sim, perfeitamente possível transformar a MPB em algo dançante. E essa descoberta foi á partir dos CDs de remixes de Zé Pedro, onde até Maria Bethânia e Nara Leão viraram música de pista de dança.

Agora o DJ Zé Pedro está abrindo uma gravadora, a Jóia Moderna. Seria mais uma gravadora como todas as outras, não fossemumd etalhe: a Jóia Moderna é especializada em CANTORAS! Sim, meus amigos, atendendo nossas preces (as minhas pelo menos) surge uma gravadora dedicada a lançar trabalhos de nossas queridas cantoras, especialmente aquelas que, porum motivo ou outro, foram alijadas do mercado fonográfico.

Na primeira fornada saíram, de cara, quatrro CDs absolutamente fantásticos: "Negra Melodia", de Zezé Motta, "A Dama Indigna", de Cida Moreira, "Ave Rara", de Sílvia Maria, e A Voz da Mulher na Obra de Taiguara. Um melhor do que o outro.

"Negra Melodia" traz de volta Zezé Motta ao disco, após 11 anos. Zezé, uma grande cantora que se deu melhor como atriz, aparece nesse CD cantando uma dupla de compositores chamados de "malditos", Luiz Melodia e Jards Macalé. O CD é ótimo, e os apreciadores de cantoras devem ter percebido jóias raras do repertório de Gal Costa ("Mal secreto") e Maria Bethânia ("Anjo exterminado") no revigorado e pouco usal repertório do CD. Nenhum dos grandes sucessos de Melodia e Macalé está no CD, mas o repertório é muito bom, e Zezé dispensa comentários.

Cida Moreira registra em "A Dama Indigna" o repertório de show de voz e piano que vem apresentando, e evoca nesse trabalho o espírito de seus primeiros discos, lançados no início dos anos 80, notadamente o primeiro, "Summertime", no qual, assim como nesse "Dama Indigna", Cida canta com seus estilo dramático, espirituoso, com um gostinho sutil de operístico, tanto clássicos da MPB quanto músicas internacionais.

Sílvia Maria é uma veterana absolutamente desconhecida do grande público. Eu mesmo não tinha ouvido falar dela até saber do surgimento da "Jóia Moderna", e fiquei encantado com o CD. Sílvia lançou apenas dois discos antes desse, o primeiro deles no início da década de 70. Uma grande cantora que precisa ser descoberta.

E finalmente "A Voz da Mulher na Obra de Taiguara" é um projeto que traz várias cantoras cantando composições de ou gravadas por Taiguara. Um disco excelente, onde as veteranas Claudette Soares, Cláudia, Fafá de Belém, Célia, Evinha, Cida Moreira, Vânia Bastos, Adyel Silva e Sílvia Maria, ao lado das cantoras mais recentes Luciana Mello, Aretha Marcos, Verônica Ferriani, Fernanda Porto e Teresa Cristina (esta, nuam especialíssima faixa bônus, "Modinha", unica música não composta por Taiguara, mas um dos maiores sucessos dele como cantor).

Como se não bastasse essas quatro belíssimas jóias, a gravadora está preparando novos CDs de Cláudia (cantando lados B da obra de Caetano Veloso) e Amelinha.

Que venham mais e mais CDs dessas grandes mulheres, e que mais e mais grandes estrelas deixadas em segundo plano pela indústria de discos tenham a chance de mostrar seu brilho de novo.

PS: o DJ Zé Pedro diz sempre "Graças a Deus o Brasil não tem só 5 cantoras". Concordo Zé!!!