23 de nov. de 2013

Clara Nunes

 

 

 

 


A Mineira Guerreira Filha de Ogum com Inhansã.


Mineira, guerreira, sabiá. 

São muitos os adjetivos criados pelos compositores para definir Clara Nunes. Em 2013 completam-se 30 anos de sua morte e, entre homenagens sinceras (mesmo que bastante criticadas pelos puristas e fãs mais exigentes) de crias interpretativas de Clara, como Fabiana Cozza, Mariene de Castro e Carla Visi, esse texto pode parecer atrasado.

Mas, por alguma coincidência Clara é uma cantora que voltou a tocar com frequencia aqui em casa. Sua discografia traça uma parábola ascendente que em nenhum momento (até por sua morte trágica e repentina) ameaçou a curva de descida.

Clara começou nos anos 60 como cantora romântica, talvez navegando nas águas do sucesso de Altemar Dutra. Mas já em seu segundo disco atingiu o sucesso nacional com um samba inédito de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, "Você passa eu acho graça". Era 1968 e a partir daí Clara marcou seu nome a ferro e fogo na história do samba, da música brasileira e tornou-se uma cantora divisora de águas. Foi Clara a primeira artista a romper com um tabu existentes nas gravadoras nacionais de que mulheres não vendiam muitos discos. O seu sucesso foi tamanho que motivou outras gravadoras a investirem em suas sambistas, tendo a Tapecar trazido Beth Carvalho (que já era muito famosa por seu grande sucesso "Andanças") para o mundo do samba, e a Philips revelado Alcione, tudo para concorrer com o sucesso de Clara na Odeon.

Ê baiana, Tristeza pé no chão, Conto de areia, O mar serenou, Canto das três raças, As forças da natureza, Guerreira, Morena de Angola, Portela na avenida, Nação, são apenas os nomes de alguns grandes sucessos de Clara Nunes. Mas cada um de seus 15 discos solo lançados em vida é um rosário de gravações brilhantes, fundamentais, exemplares. Clara era uma AULA de canto, de interpretação, de voz, de intenções.






21 de nov. de 2013

Feliz da Vida é uma brisa numa tarde de sol carioca!

1. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
2. De Amor e Mar (Ângela Ro Ro / Ricardo Mac Cord)
3. Vou Por Aí... (Ângela Ro Ro / Antonio Adolfo)
4. Capital do Amor (Ângela Ro Ro / Jorge Vercillo) - com Jorge Vercillo
5. Ela sumiu (Ângela Ro Ro)
6. Muitas Canções (Ângela Ro Ro / Lana Braga)
7. Romance Espetacular (Ângela Ro Ro / Carlota Marques)
8. Fogueira (Ângela Ro Ro) - com Maria Bethânia
9. Salve Jorge! (Ângela Ro Ro) - com Diogo Nogueira
10. Pinto Velho (Ângela Ro Ro)
11. Opium (Ângela Ro Ro)
12. Beijos na Boca (Ângela Ro Ro / Sandra de Sá) - com Sandra de Sá
13. Tudo Por Um Triz (Ângela Ro Ro / Mario de Castro)
14. Canto Livre (Ângela Ro Ro / Ana Carolina)
15. Malandragem (Cazuza / Frejat) - com Freját
16. Feliz da Vida! (Ângela Ro Ro / Moska)
17. Amor Meu Grande Amor (Ângela Ro Ro / Ana Terra)

Deve ser difícil para um cantor ou cantora fazer um primeiro disco que seja uma obra-prima definitiva. Ele se torna refém desse primeiro trabalho cheio de frescor e inspiração pelo resto de sua trajetória, e tudo que ele faça posteriormente será, de um modo ou outro, comparado a esse primeiro momento.

Angela Rô Rô é desse time. Seu primeiro disco, lançado em 1979 é tão bom, tão especial, tão inspirado, bem tocado e bem cantado, que todos os discos feitos por Angela até agora acabam sofrendo de uma injusta comparação.

Não é o caso de dizer que somente o primeiro disco de Angela seja bom. Não é isso. A grande maioria dos registros da blueseira irreverente de alma cheia de soul e fossa é de excelente qualidade. Mas para se avaliar qualquer novo disco de Angela, nós precisamos descartar esse primeiro disco, para não corrermos o risco da injustiça.
Dito isso, vamos lá: Angela está de disco novo na praça. A cantora que criou fama (muito por preconceito e injustiça) de agressiva nos anos 80 a muitos anos se livrou dos pesos dos vícios e da fossa que, segundo ela mesma, transformaram sua vida num inferno na década de 90, e hoje é uma mulher muito mais leve, não só por conta dos muitos quilos perdidos, mas leve também na alma.

O novo CD (e DVD) de Angela chama-se "Feliz da Vida!" e é uma brisa fresca numa tarde de verão carioca. Essa foi a sensação que me veio ao escutar as novas canções de Angela. A de uma delicioso passeio pela bela orla da Zona Sul do Rio numa tarde de verão, olhando o mar e as montanhas, num estado de total prazer. Feliz da Vida não poderia ser um título mais adequado.

A maioria das canções é inédita, e o destaque é a faixa título, parceria com Paulinho Moska, que aparece em duas versões: uma com o parceiro, a outra somente na voz (sempre belíssima) de Angela. Com exceção de "Fogueira", "Amor meu grande amor" e "Malandragem" (que se justificam pelas participações especiais de Maria Bethânia e Freját, que fizeram sucesso com as duas primeiras e, novamente, de Freját, que compôs a terceira para Angela, mas que esta jamais gravou, deixando o privilégio de lançá-la com imenso sucesso para Cássia Eller), todas as músicas são novas. Jorge Vercilo aparece cantando com Angela outro destaque, a faixa "Capital do amor", mais uma canção com cheiro de Zona Sul carioca.

Angela Rô Rô fez um disco delicioso de se escutar. É um disco simples, despretensioso, ensolarado. Me deixou feliz da vida!

Ana Carolina...



O novo Cd de Ana Carolina é um suplício de se escutar. O que era apenas uma ameaça ao ouvir os primeiros versos da primeira faixa, de nome “Pole dance” (“Ela rebola, rebola, rebola, ela quer dólar, quer dólar, quer dólar...”) se transformou, após atenta audição, na concretização de meus mais fortes temores: Não dá mais para dizer que Ana Carolina está ficando chata. Ela já ficou chata, no mínimo, a uns dois ou três discos atrás.

Não dá mais pra aguentar aquelas letras em que a cantora veste a capa da cafajeste/pegadora (Sei do inferno que eu criei / Na sua vida / Por isso é que você me quer / Então vai ter que me encarar -“Esperta”), o erotismo forçado (Pra distrair ela lê, seu olhar de estilingue / Acerta todo o cabaré, homem e mulher / É muito mais do que bilíngue / Faz com a língua o que quiser – “Pole Dance”), as letras do tipo trava língua repleta de citações de nomes de gente que Ana acha que é chique citar (Será que eu sou capaz de tal canção? / Que tenha algo em excesso ou algo excelso / Como uma peça, um ato de Zé Celso / Como um poema de Augusto de Campos / Ou como um rock de Arnaldo Antunes.... – “Uma Canção Para Ti”), e, as piores, as letras em que Ana Carolina se transforma na amante psicótica (Sei que fui fanática, suicida / Abri mão da própria vida / Fui refém e fui bandida / Por querer te amar demais – “Combustível”).

É sintomático que a melhor música do disco seja um pastiche de Chico Buarque. “A resposta da Rita” é um samba feito sobre a letra e a melodia de “A Rita” de Chico Buarque, no qual a personagem da canção original responde ao compositor, numa letra interessante. Mas precisou a inspiração do grande Chico para motivar o talvez único momento alto do disco inteiro (e com a participação de Chico contracantando a sua própria música). No resto o Cd é enfadonho, chato, repetitivo.

Resta o vozeirão cheio de personalidade de Ana, que, quando não carrega nas tintas, é boa cantora. Talvez esteja mais do que na hora de Ana largar a mão da composição e fazer um disco somente de músicas dos outros, daquelas já conhecidas e batidas, mas que não são clássicas à toa.

14 de mar. de 2012

"Fábula" - Cris Braun



Fábula (Warner / Tratore)

1. Ossos (Wado)
2. Cidade Grande (Wado)
3. Tanto faz Para O Amor (Lucas Santtana / Quito Ribeiro)
4. Deve Ser Assim (Alvin L. / Marina Lima)
5. Tão Feliz (Cris Braun / Billy Brandão)
6. Artérias (Cris Braun) - instrumental
7. Viga (Fernando Fiúza / Cris Braun)
8. Oscilante (Fernando Fiúza)
9. E O Amor Calou (Cris Braun)
10. Terra do Nunca Mais (Cris Braun) - instrumental
11. Memória Da Flor (Jr. Almeida / Zé Paulo) - com Celso Fonseca

A "Fábula" de Cris Braun.


Cris Braun é uma dessas artistas brasileiras que o Brasil deveria conhecer mais. Cantora de voz quente, compositora inspirada, Cris tem prestígio e está sempre cercada de nomes importantes da MPB. Lançou o primeiro CD, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” em 1997, guiada pelos braços de Marina Lima, sendo a primeira artistas lançada pelo selo fonográfico desta. “Atemporal”, de 2005, trazia a participação especialíssima de Paula Toller. Estes são apenas dois exemplos do pessoal que circula ao redor de Cris.



Gaúcha, atualmente Cris reside em Maceió, mas garante que a Internet torna as fronteiras cada vez mais próximas. Ex membro do cultuado grupo Sex Beatles, que também revelou o compositor e cantor Alvin L, agora Cris está lançando seu terceiro CD, “Fábula”, um belo poema/musical que trata de forma leve a respeito das durezas (e suavidades) da vida. Mais uma vez cercada de figuras importantes e talentosas (embora nem sempre conhecidos do grande público): Celso Fonseca, Wado, Lucas Santana, Billy Brandão.

Cris Braun concedeu entrevista para Doug Carvalho por e-mail, e falou de sua carreira, de seu novo CD e de projetos futuros. Leia a entrevista, saboreie os vídeos, compre o CD.



DOUG CARVALHO: “Fábula” é o seu terceiro CD solo. Quando vc prepara o repertório para um CD, como é feita a escolha das canções? Elas vão surgindo naturalmente e formando um repertório ou você tem um conceito desde o início que vai guiando a escolha das canções?

CRIS BRAUN: É muito variável. "Fábula" foi se mostrando, só tinha uma canção e a idéia que queria era a historinha deste ser humaninho que vem, vive e vai embora.

DOUG: Como foi a feitura de “Fábula”? Eu sei que vc demorou um bom tempo preparando ele. O intervalo entre o anterior “Atemporal” e o atual é de sete anos. Por qual motivo demorou para concluir esse disco?

CRIS: Demanda externa, outros assuntos, o fato de fazer entre Rio e Maceió, construção mesmo.

DOUG: De que fala a sua “Fábula”? E qual o motivo desse título?

CRIS: Nascemos inocentes e puros, vivemos e temos todas as experiências de amor, perda, ambição, raiva, alegria, constatações sobre a dureza de se viver nas grandes cidades e na melhor das hipóteses, um dia, reencontramos os sentidos e a paz ! Fala disso. E por isso mesmo "Fábula", embora nao tenha moral da história.

DOUG: Você tem alguma canção favorita nesse CD?

CRIS: "Terra do nunca mais" (NOTA: uma das duas canções instrumentais do CD)

DOUG: O leitor que tiver a curiosidade de escutar o CD pode fazer em algum site na Internet?

CRIS: www.crisbraun.com.br. E lá baixa os outros tb.

DOUG: Em recente entrevista eu li que você, a um tempo atrás, ficou meio “triste” ao se ver no panorama musical brasileiro, por não ter estourado comercialmente lá atrás, quando gravou o primeiro CD, ao mesmo tempo que também não é parte da chamada “Nova MPB”, mas que depois sacou que tinha um lugar para você. Quando li essa matéria, fiquei meio surpreso pelo fato de não ter “estourado” poder entristecer você, uma vez que a forma como você conduz sua carreira não me passar um interesse de ser comercial. Tudo em seu trabalho me dá a sensação de você ser um desses artistas para quem o resultado artístico é bem mais importante que o valor comercial puramente. Como funciona para você essa questão do resultado artístico versus comercialização da arte?

CRIS: O que eu quis dizer alí, é que o fato de não ter tido mais projeção lá atrás, fazia com que eu nesse momento não soubesse em que lugar estava, para onde me dirigir, e se fazer um disco fazia sentido. Isto me deixou triste, não não ter estourado. Mas passou logo (risos). Todos desejamos viver do que fazemos e ter o reconhecimento merecido. Mas não deixo de fazer o que tenho que fazer, mesmo que não seja exatamente como se quer.

DOUG: Quando cada um dos seus três CDs solos foram gravados, você estava morando em cidades diferentes. Em “Cuidado com pessoas como eu” você morava no Rio de Janeiro, “Atemporal” você morava em Teresópolis, e agora com “Fábula” você está morando em Maceió. Eu tenho a sensação de que cada um desses discos reflete o clima dessas cidades. No “Cuidado” a gente percebe uma coisa mais urbana, no “Atemporal” um certo bucolismo do contato com a natureza. Essa impressão minha é pertinente? Se sim, o que há do clima de Maceió em “Fábula”?

CRIS: "Fábula" tá na cidade e tá no mar. "Fábula" tá na alma.

DOUG: Algumas canções compostas por você tiveram sucesso nas vozes de outros cantores, principalmente “Como é que eu vou embora”, com o Kid Abelha, “Menos carnaval” (que eu adoro, por sinal), com Belô Velloso e “Vênus”, com a Daúde. Já pensou em gravar essas músicas?

CRIS: Sim, tenho planos secretos (risos)!!

DOUG: DVD é uma possibilidade?

CRIS: Do jeito que eu gostaria de fazer seria muito caro. Um dia, talvez.

DOUG: Vc é muito ligada em música clássica. Vc acredita que seu modo de compor incorpora elementos da música erudita?

CRIS: Mais no desejo do que de fato. Mas acho que em algum lugar, sim.

DOUG: Cris, o mercado musical de hoje é complicado. Existe a questão da pirataria e do jabá. Pra tocar no rádio o artista tem que ser contratado de uma grande gravadora ou já ser muito conhecido. Como é para você divulgar o seu trabalho no Brasil inteiro? Morar numa cidade que não é considerada um centro cultural como São Paulo e Rio dificulta, ou a Internet consegue eliminar essa questão geográfica?

CRIS: A Internet é gloriosa neste sentido!

DOUG: Em “Fábula” você gravou duas músicas de Wado, e em 2011 o trabalho dele foi muito bem recebido pela crítica. Como foi seu contato com ele?

CRIS: Wado mora aqui, temos a mesma turminha, e eu admiro muito mesmo o trabalho dele.

DOUG: Essa entrevista está sendo feita para um blog e site sobre cantoras brasileiras. Em seu segundo CD você gravou a música “Nenhuma dor”, lançada em 1967 por Gal Costa, no “Cuidado com Pessoas como eu” você gravou “Bom conselho”, que a Bethânia gravou. Vc se considera uma cantora influenciada por outras cantoras brasileiras?

CRIS: Não, eu gosto de música boa, e ouço muita coisa. Não sinto influências diretas não.

DOUG: No Brasil e fora, quem são os artistas que têm tocado no seu aparelho de som?

CRIS: Wado, Lucas Santtana, Pj Harvey, Silva, Leonard Cohen, Mônica Salmaso, Arvo Part, Bjork, Junior Almeida, Kd Lang, bandas de post rock geralmente instrumentais, Gal, Tiê, galera de Pernambuco, muita instrumental mesmo, tipo orquestra de berimbaus.... muita coisa.

DOUG: Vc foi membro do grupo “Sex Beatles”. Como foi esse período de sua carreira?

CRIS: Rock and roll (risos).

DOUG: Você pretende levar o show de “Fábula” pelo país? Como funciona sua agenda de shows?

CRIS: Pretendo ir aonde os recursos permitirem. Tô indo. (risos)

DOUG: Quero agradecer imensamente por essa entrevista. Sinta-se à vontade para mandar sua mensagem para os que a lerem.

CRIS: Só agradecimentos!! E ... “Gentem”, procurem ser originais e curiosos para ouvir música!! Beijocas!

13 de mar. de 2012

Ouça as canções de "Fábula", o novo CD de Cris Braun























"Cuidado Com Pessoas Como Eu"

Assista o Clip de "Cuidado Com Pessoas Como Eu" (Cris Braun / William Magalhães / Nilo Romero), música do primeiro CD solo de Cris Braun, lançado em 1997.

9 de dez. de 2011

O Recanto de Gal Costa.


Gal Costa está de volta, depois de uma lacuna de 6 anos sem gravar (5, se formos contar os CDs "Gal Costa Live at Blue Note" e "Gal Costa Ao Vivo", de 2006). O último disco de estúdio de Gal foi "Hoje", lançado em 2005, no qual a cantora apresentava ao grande público compositores pouco conhecidos, uma coleção de boas canções, mas que, por motivos mais que sabidos - ou mesmo impossíveis de definir - não fizeram sucesso e ainda que o disco tenha recebido boas críticas na época de seu lançamento, permanece pouco conhecido do grande público. O fato é que somente os fãs mais dedicados - e Gal Costa os tem aos montes - conheceram o CD.

Acaba de ser lançado pela gravadora Universal o CD "Recanto". No disco, Gal interpreta 11 canções de Caetano Veloso, que também produziu o CD. Bom... dizer que Caetano produziu o CD e compôs as músicas é uma meia evrdade. O fato é que "Recanto" nasceu de uma idéia de Caetano, que propôs à cantora gravar um CD produzido por ele, somente com canções dele e com sonoridade imaginada por ele, centrada em programações eletrônicas. Dada a proximidade entre os dois artistas, é mais que claro que Gal topou o projeto.

Depois de anos com uma incômoda sensação de que minha adorada cantora preferida iria se tornar uma espécie de súper-Emílio Santiago, relendo com competência mas sem grandes inventividades clássicos ultra conhecidos, Gal gravou um dos CDs mais instigantes e profundos de sua carreira.

Nunca, em nenhum de seus discos anteriores, nem mesmo os mais badalados pela crítica ou os maiores sucessos de público, Gal Costa esteve tão desnudada. Não acho que o fato de ter a maior parte dos arranjos pautados em programações eletrônicas faça de "Recanto" um CD 'moderno.' Ora, a eletrônica não é nenhuma novidade no cenário da MPB, a anos tem figurado em discos de vários artistas do Brasil, como Adriana Calcanhotto, Fernanda Porto, Vanessa da Mata (que estourou nacionalmente com um remix de sua canção "Ai ai ai ai"), só para ficar nas cantoras, foco desse blog. Até a própria Gal Costa já flertou com a eletrônica em seu CD "Aquele Frevo Axé", de 1998, produzido por Celso Fonseca, além de já ter tido algumas de suas músicas remixadas, como já aconteceu com suas gravações de "Socorro", "Chora tua tristeza" e "Sebastiana". Ou seja, a voz de Gal e a aletrônica não são totalmente estranhas uma à outra. O que faz com que "Recanto" seja um CD altamente instigante são as canções compostas por Caetano (9 inéditas, duas já pré-existentes) para Gal cantar. Caetano tem contado nas entrevistas de lançamento do CD que teve a confirmação de suas intençôes de produzir esse disco com Gal ao vê-la em um show de voz e violão em Portugal, de onde tirou a imagem dos versos "roço a minha voz no meu cabelo", da letra de "Autotune autoerótico", uma das canções novas. Caetano criou canções de letras longas e melodias repetitivas, que adornadas com os arranjos eletrônicos soam como o oposto total do que se espera de uma cantora como Gal Costa, conhecida por seu apego à melodias mais rebuscadas e... melodiosas. Mas aí é que está o pulo do gato: se Caetano foi radical na composição das melodias, às vezes dura e lineares, efeito acentuado pelos arranjos, que poderiam ser estranhas à voz de Gal, ele criou letras que são, a todo momento, referências, explícitas ou não, à obra, vida e personalidade de Gal. Algumas pessoas têm insinuado pelos "recantos escuros" da internet uma possível passividade da cantora na produção desse disco, mas, incrivelmente, num disco totalmente idealizado por Caetano Veloso, Gal Costa NUNCA FOI TÃO ELA MESMA, e através das letras de Caetano Gal tem a ousadia até mesmo de tocar em assuntos delicados, como a postura de diva ostentada em certa fase da carreira ("era só fazer pose e cantar / presa ao dinheiro"), as cobranças sempre feitas a ela de realizar discos e shows "modernos", "revolucionários" ou "inventivos" ("Convidam-me a mudar o mundo / É fácil: nem tem que pensar / Nem ver o fundo"), dureza de viver ("Viver é um desastre que sucede a alguns"), a maternidade recente ("o menino salva as madrugadas") e mais um outro tanto de frases/flashes que falam muito sobre Gal, de uma forma como nunca antes, nem em "Vapor barato", "Baby", "Festa do interior" ou mesmo "Meu nome é Gal" aconteceu.

"Recanto" é um súper disco por aliar ótimas canções, arranjos que tentam a todo momento fugir dos sons convencionais e confortáveis, e uma cantora que canta com grande verdade. "Recanto" é, na minha opinião, depois do ousadíssimo "Gal", de 1969, o disco mais inusitado de Gal Costa. Muita gente vai estranhar, mas o disco já é um sucesso de crítica, apesar de uma (e não sei se outra) opinião negativa. Porém, como diz o verso final de "Recanto escuro": "Coisas sagradas permanecem / Nem o Demo as pode abalar / Espírito é o que enfim resulta / De corpo, alma, feitos: cantar"

O REPERTÓRIO
1- Recanto Escuro
2- Cara do mundo
3- Autotune autierótico
4- Tudo dói
5- Neguinho
6- O menino
7- Madre Deus
8- Mansidão
9- Sexo e dinheiro
10- Miami maculelê
11- Segunda

20 de mai. de 2011

Ouça o Cd "A Voz Da Mulher Na Obra De Taiguara", na Rádio UOL




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Ouça o CD "Ave Rara", de Sílvia Maria, na Rádio UOL




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Ouça o CD "A Dama Indigna", de Cida Moreira, na Rádio UOL




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Ouça o CD "Negra Melodia", de Zezé Motta, na Rádio UOL




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As Jóias de Zé Pedro


Em Salvador, cidade onde vivo, deixei de ir para danceterias por não ter mais a menor paciência para a pedância dos DJs locais que querem a todo custo serem londrinos ou coisa que o valha e enchem o saco com bate-estaca repetitivo e sem letras, uma coisa insuportável, absolutamente distante do que me é agradável aos ouvidos. Porém, a muito tempo gosto do DJ Zé Pedro. O que é uma coisa estranhíssima, levando em consideração que detesto música eletrônica. A grande diferença entre o DJ Zé Pedro e seus colegas pretensamente "internacionais" é que Zé assume a música brasileira! A muito tempo que descobri que é, sim, perfeitamente possível transformar a MPB em algo dançante. E essa descoberta foi á partir dos CDs de remixes de Zé Pedro, onde até Maria Bethânia e Nara Leão viraram música de pista de dança.

Agora o DJ Zé Pedro está abrindo uma gravadora, a Jóia Moderna. Seria mais uma gravadora como todas as outras, não fossemumd etalhe: a Jóia Moderna é especializada em CANTORAS! Sim, meus amigos, atendendo nossas preces (as minhas pelo menos) surge uma gravadora dedicada a lançar trabalhos de nossas queridas cantoras, especialmente aquelas que, porum motivo ou outro, foram alijadas do mercado fonográfico.

Na primeira fornada saíram, de cara, quatrro CDs absolutamente fantásticos: "Negra Melodia", de Zezé Motta, "A Dama Indigna", de Cida Moreira, "Ave Rara", de Sílvia Maria, e A Voz da Mulher na Obra de Taiguara. Um melhor do que o outro.

"Negra Melodia" traz de volta Zezé Motta ao disco, após 11 anos. Zezé, uma grande cantora que se deu melhor como atriz, aparece nesse CD cantando uma dupla de compositores chamados de "malditos", Luiz Melodia e Jards Macalé. O CD é ótimo, e os apreciadores de cantoras devem ter percebido jóias raras do repertório de Gal Costa ("Mal secreto") e Maria Bethânia ("Anjo exterminado") no revigorado e pouco usal repertório do CD. Nenhum dos grandes sucessos de Melodia e Macalé está no CD, mas o repertório é muito bom, e Zezé dispensa comentários.

Cida Moreira registra em "A Dama Indigna" o repertório de show de voz e piano que vem apresentando, e evoca nesse trabalho o espírito de seus primeiros discos, lançados no início dos anos 80, notadamente o primeiro, "Summertime", no qual, assim como nesse "Dama Indigna", Cida canta com seus estilo dramático, espirituoso, com um gostinho sutil de operístico, tanto clássicos da MPB quanto músicas internacionais.

Sílvia Maria é uma veterana absolutamente desconhecida do grande público. Eu mesmo não tinha ouvido falar dela até saber do surgimento da "Jóia Moderna", e fiquei encantado com o CD. Sílvia lançou apenas dois discos antes desse, o primeiro deles no início da década de 70. Uma grande cantora que precisa ser descoberta.

E finalmente "A Voz da Mulher na Obra de Taiguara" é um projeto que traz várias cantoras cantando composições de ou gravadas por Taiguara. Um disco excelente, onde as veteranas Claudette Soares, Cláudia, Fafá de Belém, Célia, Evinha, Cida Moreira, Vânia Bastos, Adyel Silva e Sílvia Maria, ao lado das cantoras mais recentes Luciana Mello, Aretha Marcos, Verônica Ferriani, Fernanda Porto e Teresa Cristina (esta, nuam especialíssima faixa bônus, "Modinha", unica música não composta por Taiguara, mas um dos maiores sucessos dele como cantor).

Como se não bastasse essas quatro belíssimas jóias, a gravadora está preparando novos CDs de Cláudia (cantando lados B da obra de Caetano Veloso) e Amelinha.

Que venham mais e mais CDs dessas grandes mulheres, e que mais e mais grandes estrelas deixadas em segundo plano pela indústria de discos tenham a chance de mostrar seu brilho de novo.

PS: o DJ Zé Pedro diz sempre "Graças a Deus o Brasil não tem só 5 cantoras". Concordo Zé!!!

6 de abr. de 2011

O Quintal de Ná


Ná Ozzetti é uma das melhores cantoras brasileiras. Não se pode dizer que essa seja uma verdade conhecida de todo mundo, uma vez que a cantora paulista jamais foi um sucesso de massas, mesmo com uma relativa visibilidade no Festival da Música Brasileira em 2000, tentativa frustrada da Rede Globo de reviver os áureos tempos dos Festivais da Canção da década de 60. Se o Festival da Rede Globo não revelou nenhum novo expoente da MPB, como os Festivais da Record nos anos 60, pelo menos um saldo positivo adveio desse evento: como premiação por ter ganho a categoria de Melhor Intérprete do Festival, Ná Ozzetti ganhou o direito de lançar um CD pela Som Livre, que saiu em 2001 e se chamou "Show", nome da canção de Luiz Tatit e Fábio Tagliaferri que Ná defendeu no tal festival. Se essa música era uma inédita do de um dos compositores que acompanharam a carreira de Ná (Luiz Tatit era - e ainda é - o grande mentor do Grupo Rumo, expoente da vanguarda Paulistana que no início da década de 80 tinha Ná como principal vocalista), o restante do CD "Show" foi todo formado pela releitura de grandes clássicos da Era de Ouro da MPB, não por acaso na maioria gravados originalmente por grandes cantoras, como Araci Cortes ("Linda flor"), Carmen Miranda ("Na batucada da vida" e "Adeus batucada"), Aracy de Almeida ("Último desejo"), Dalva de Oliveira ("Segredo"), Isaura Garcia ("Mensagem"), Elizeth Cardoso ("Canção de amor" e "As praias desertas"), Dolores Duran ("Não me culpes") e Maysa ("Meu mundo caiu"). A partir desse disco, Ná Ozzetti iniciou um longo período de discos de "intérprete", interrompendo o processo iniciado em 1994 com o disco "Ná" e que seguiu com "Estompim", em 1999, no qual passou a aparecer também como compositora de parte do repertório desses discos, tendo como parceiros nomes como Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Luis Tatit, entre outros. Em 2005 e 2006 Ná gravou com o pianista André Mehmari dois CDs e um DVD do projeto "Piano e Voz", e em 2009 lançou o elogiadíssimo CD "Balangandãs", no qual faz uma homenagem a Carmen Miranda, cantora de grande influência no trabalho de Ná.


Pois bem, após um hiato de 11 anos, Ná volta a aparecer como compositora no seu novo CD, intitulado "Meu Quintal", pela gravadora Borandá, através do selo Ná Records. Se nos seus trabalhos anteriores a compositora ficou em segundo plano, nesse novo trabalho 11 das 12 faixas do CD são parcerias de Ná Ozzetti com Luis Tatit, Zélia Duncan, Alice Ruiz, Asthur Nestrovski, Makely Ka, Carol Ribeiro e Neco Prates (não por acaso, marido da cantora). Somente uma das músicas, "A Velha Fiando", não é composição de Ná, e foi escrita por Dante Ozzetti (irmão da cantora) e Luiz Tatit. Ná Ozzetti não é letrista. Sua parte nas composições é a criação da melodia. E aí está a virtude e defeito do CD. O CD, a rigor, é muito bom. Porém Ná Ozzetti criou melodias difíceis de serem assimiladas, que faz com que o CD não tenha aquelas características intrínsecas a músicas de fácil apelo popular, sejam elas boas ou ruins: elas não são músicas "cantaroláveis" em uma primeira audição. O CD, como um todo, é daqueles que o ouvinte precisa escutar várias vezes seguidas para apreender as melodias, e daí começar a gostar. Porém passado o estranhamento inicial começa a adquirir peso a cada audição, à medida que as melodias vão ficando familiares. Não é um CD para o ouvinte comum acostumado a programação radiofônica. É difícil, as melodias são abertas, cheias de vagos... mas seria um contrasenso que uma artista que já está na cena musical do país a 30 anos sem nunca ter sido uma mega-star (e esse CD é comemoração desses 30 anos) tenha a preocupação de ser "popular", quando a essa altura do campeonato não faria mais sentido algum fazer concessões. Por outro lado, talvez músicas de compositores de fora do "grupo da Ná" pudessem trazer um colorido extra ao CD quando justapostas às melodias criadas pela cantora. Das 12 músicas, uma, "Entre o amor e o mar" (Ná e Luiz Tatit) já tinha sido lançada em 2006 pela cantora Jussara Silveira, e é a única não inédita.




Repertório do CD:


1. Meu Quintal (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

2. A Velha Fiando (Dante Ozzetti / Luiz Tatit)

3. Baú de Guardados (Ná Ozzetti / Alice Ruiz)

4. Tupi (Ná Ozzetti / Arthur Nestrovski)

5. Ser Estar (Ná Ozzetti / Alice Ruiz)

6. Equilíbrio (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

7. Onde a Vista Alcança (Ná Ozzetti / Makely Ka)

8. Chuva (Ná Ozzetti / Carol Ribeiro)

9. Acordo de Amor (Ná Ozzetti / Alice Ruiz / Neco Prates)

10. Sobrenatural (Né Ozzetti / Zélia Duncan)

11. Lingua Afiada (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)

12. Entre o Amor e o Mar (Ná Ozzetti / Luiz Tatit)


O CD tem uma certa preocupação ecológica, como se pode notar em versos como "Meu quintal / tem um rio / que ainda dá / pra navegar" ("Meu quintal"), "Fábricas vêm para os trópicos / fim das florestas / e o solo deserto / aquece o planeta / derrete as geleiras / aumenta o oceano" ("A velha fiando"), "Amanheceu / Bicho cantou / Mudou o gosto do ar" ("Tupi"), "Chuva que regou o meu jardim / Floriu" ("Chuva"). Mas também discorre sobre temas existenciais em "Baú de guardados" ("Trago fechado no peito um baú de guardados / Jóias, gemas e pérolas, que podem ofuscar meus olhos"), "Ser estar" ("Eu fui, eu sou, estou / Quem foi que disse / Que pode dizer / Quem eu sou?"), "Onde a vista alcança" ("Quando a vida descansa / Foi alguém que partiu / Fica só a fragrância / Vaga, sutil / Mas o tempo avança e fica esse fio"). E, como é de se esperar, não deixa de falar de amor, como em "Acordo de amor" ("Faço como meu amor / Uma cordo / Nunca fazer sombra / Um para o outro"), "Sobrenatural " ("Sobrenatural ver você se afastar / Quase transbordei de vazio e sal").


Em "Meu Quintal", Ná conta com os mesmos músicos que a acompanharam no bem sucedido CD anterior, "Balangandãs": Dante Ozzetti (violões), Mário Manga (guitarras, violoncelo e violão tenor), Sérgio Reze (bateria e gongos) e Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo). Como no CD anterior, os músicos fazem um trabalho de excelente qualidade. A produção é de Mário Manga (que, por acaso, é o orgulhoso papai da cantora Mariana Aydar). Nota à parte é o belíssimo trabalho gráfico do CD. O digipack é lindo, e o trabalho foi elaborado pelo pessoal do site http://www.taocriativo.com.br/ . Muito bom! Ah, o trabalho da cantora? Releia a primeira frase desse texto!! Como sempre, Ná está cantando muito bem.

4 de abr. de 2011

Minhas namoradas musicais


Paulo Gracindo, na década de 50, quando era ainda radialista e apresentava programas musicais na Rádio Nacional, apelidou a cantora Zezé Gonzaga de sua "Namorada Musical". De fato não havia nada entre Paulo e Zezé, mas a musicalidade e delicadeza do canto de Zezé permitiam esses arroubos sentimentais de Paulo.


Eu sempre tive minhas namoradas musicais, desde criança. Quando bem pequenininho, minhas duas primeiras paixões foram Joanna e Alcione. Isso foi no final da década de 70 para início dos anos 80. De fato minha paixão por essas duas não era exatamente musical, embora eu até hoje ache que as duas, cada uma a seu modo, tem valor e talento, eu na realidade achava as duas lindas e queria casar com elas (!!!). Coisas de criança.


De fato minha primeira paixão musical foi Rita Lee, que eu digo até hoje que foi a minha Xuxa. Sim, pq enquanto meus contemporâneos achavam a Rainha dos Baixinhos o máximo, eu, que até podia ver o programa de TV da Xuxa quando acordava cedo (o que nunca foi meu forte), mas minha predileção mesmo era a Rainha do Rock, com sua irreverência, graça e humor. Adorava a Rita e até hoje acho que ela é uma das maiores mulheres da MPB.


Se Rita foi a minha "Namorada Musical" na infância, eu acabei casando musicalmente com outra grande dama da minha adolescência. Gal Costa foi quem monopolizou todas as minhas atenções a partir dos meus 12 anos, e ainda é a minha cantora favorita, minha eterna namorada musical, embora vez por outra eu tenha lá minhas desavenças musicais com ela. Entre indas e vindas, Gal é uma paixão que certamente me acompanhará por toda a vida, mas nossa relação se tornou madura e abriu espaço para que outras pessoas surgissem.


Na minha fase adulto-jovem fui arrebatado por um trator de emoção, calor e voz chamado Cássia Eller. Cássia foi minha terceira Namorada Musical. Na década de 90 tive a certeza de que Cássia seria a maior intérperet brasileira durante muito tempo, até que aquela tragédia aconteceu... enfim...


Enquanto meu relacionamento com Cássia ia a todo calor eu conheci uma outra moça, esta com doce voz de cotovia, a paulistíssima Ná Ozzetti, com sua afinação perfeita, seu repertório entre o clássico e o inusitado, sua m usicalidade acima de qualquer suspeita. De fato foram exatamente Gal Costa e Cássia Eller quem me levaram a ouvir (e me apaixonar) por Ná, minha quarta namorada musical. A primeira vez que li o nome de Ná Ozzetti foi numa crítica de um disco de Gal (o jornalista falava de cantoras que seguiam o estilo de Gal, entre elas as mais destacadas, segundo ela, Marisa Monte e Ná Ozzetti. Ná "who"? eu me perguntei). Em seguida Cássia, que era também fãzoca de Ná, citou-a em diversas entrevistas, o que aumentou meu interesse e curiosidade... mas acho que aí eu já estava rendido por Maria Cristina Ozzetti.


Finalmente nos últimos anos uma outra menina tem me conquistado com sua despretenção, humildade, refinamento, bom gosto. Teresa Cristina é minha quinta namorada musical, e, apesar de algumas poucas vozes chatas dissonantes depondo contra, cada vez mais tenho certeza de que Teresa veio para ficar e fazer diferença na MPB. Cinco cantoras de uma legião que me encanta. Rita, Gal, Cássia, Ná e Teresa são uma pequena grande mostra de tudo de bacana que as mulheres fazem e fizeram pela música brasileira. Adoro-as.

10 de jun. de 2010

Geração 2000


De tempos em tempos a MPB passa por um bum de surgimento de cantoras, quando aparecem quase ao mesmo tempo várias artistas de talento, que se tornam figuras importantes do cenário da Música Brasileira. Foi assim no final dos anos 70, quando apareceram quase concomitantemente Zizi Possi, Angela Rô Rô, Elba Ramalho, Marina Lima, Olívia Byington, Joanna, Fátima Guedes, e outras, uma geração de artistas que ficou conhecida como "As Cantoras de 79", ano em que a maioria delas começou a aparecer na mídia.No início dos anos 90, na esteira do grande sucesso obtido por Marisa Monte em 1989, o fenômeno se repetiu, trazendo para as luzes os nomes de Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Zélia Duncan e Daniela Mercury, todas surgidas por volta de 1990.

Ainda é cedo para afirmar que o fenômeno se repete agora nos anos 2000, pelo simples fato de que elas estão ainda em início de carreira, mas uma nova geração vem se configurando. Destacado os casos de Maria Rita, Vanessa da Mata e Teresa Cristina, que surgiram um pouco antes, o boom a que me refiro se deu de 2005 para cá, com o surgimento de Roberta Sá, Ana Cañas, Mariana Aydar, Céu, Bruna Caram, Marina de La Riva, Maria Gadú, entre outras.

Apesar de muito elogios por parte da imprensa, tenho ouvido também inúmeras críticas a essa nova geração, principalmente dos afixionados pelas cantoras da brilhante geração dos anos 60 e 70, de Elis, Bethânia, Gal, Nana, Clara, etc. Essas críticas se resumem no seguinte ponto: essa nova geração não se sustentaria por muito tempo por lhe faltar "presença" e "identidade". Quando falam "presença", se referem ao fato de que essas pessoas não veem nessa nova geração a mesma força interpretativa daquelas cantoras citadas acima, e quando falam "identidade", referem-se a possibilidade delas serem muito semelhantes entre si em termos de timbre de voz e forma de cantar.

Não sou partidário dessas críticas, embora concorde em alguns pontos. Com relação às comparações com cantoras da geração passada, eu não concordo e acho absurdo qualquer avaliação do trabalho artístico de alguém, principalmente em música, pela comparação do que outro tenha feito. Gosto ou não de um disco, de uma voz, pelo que ela é em si, não pelo fato de achar que outro disco ou outra voz possa ser maior.

Com relação ao fato dessa nova geração se assemelhar muito em termos de timbre vocal, cncordo em parte. Mas não acho que isso faça com que nossas novas cantoras não tenham "identidade".

O que acontece é que não posso escutar um disco de alguma dessas cantoras que citei e não perceber ali uma dedicação à escolha do repertório, à criação dos arranjos, e, também, a beleza singela das vozes. Recentemente fiquei imensamente feliz e emocionado com uma campanha da Arezzo, no qual Roberta Sá, Mariana Aydar, Ana Cañas e Maria Gadú aparecem todas produzidas cantando o rockinho dos anos 80 "Totalmente Demais". Achei encantador e fiquei feliz pelas novas cantoras brasileiras terem representatividade suficiente como grupo, a ponto de estrelarem uma campanha de uma das mais famosas marcas de sapato do país. Logicamente que eu gosto mais de algumas dessas novas cantoras que de outras, mas por mais que eu ainda não tenha visto um timbre inconfundível de voz, tenho total prazer em ouvir a delicadeza de Roberta, Mariana, Marina, Ana, Céu, etc. Acho importante, depois de tantos anos de modismos radiofônicos via jabá, da falta de noção - e até de pudor - banalizada por coreografias acolhidas pela falta de gosto das classes A, B, C e D, nesse momento da ditadura do politicamente correto, que ainda existam pessoas que façam música pelo prazer de fazer música, se dediquem a pesquisar sonoridades, palavras, tentem cantar bonito. Mesmo que não surja uma nova Gal Costa (e não é preciso que surja), acho maravilhoso que Roberta Sá, Mariana Aydar, Ana Cañas, Marina de La Riva, Céu e Maria Gadú tenham a pretenção de honrar toda a grande história da MPB.